domingo, 2 de maio de 2010

A caminho da porta - Teatro de Machado de Assis

Publicada originalmente Teatro de Macaho de Assis v.I, Rio de Janeiro, Tipografia do Diário do RJ, 1863.

Encenada pela primeira vez no Ateneu Dramático do Rio de Janeiro,

em setembro e novembro de 1862, respectivamente.


A CAMINHO DA PORTA

Comédia em um ato

Representada pela primeira vez no Ateneu Dramático do Rio de Janeiro em setembro de 1862.

PERSONAGENS

DOUTOR CORNÉLIO

VALENTIM

INOCÊNCIO

CARLOTA

Atualidade.

Em casa de Carlota

(Sala elegante. — Duas portas no fundo, portas laterais, consolos, piano, divã, poltronas, cadeiras, mesa, tapete, espelhos, quadros; figuras sobre os consolos; álbum, alguns livros, lápis, etc. sobre a mesa.)

Cena I

VALENTIM (assentado à esquerda alta); o DOUTOR (entrando)

VALENTIM

Ah! És tu?

DOUTOR

Oh! Hoje é o dia das surpresas. Acordo, leio os jornais e vejo anunciado para hoje o Trovador. Primeira surpresa. Lembro-me de passar por aqui para saber se D. Carlota queria ir ouvir a ópera de Verdi, e vinha pensando na triste figura que devia fazer em casa de uma moça do tom às 10 horas da manhã quando te encontro firme como uma sentinela no posto. Duas surpresas.

VALENTIM

A triste figura sou eu?

DOUTOR

Acertaste. Lúcido como uma sibila. Fazes uma triste figura, não te deve ocultar.

VALENTIM

(irônico)

Ah!

DOUTOR

Tens ar de não dar crédito ao que digo! Pois olha, tens diante de ti a verdade em pessoa, com a diferença de não sair de um poço, mas da cama, e de vir em traje menos primitivo. Quanto ao espelho, se o não trago comigo, há nesta sala um que nos serve com a mesma sinceridade. Mira-te ali. Estás ou não uma triste figura?

VALENTIM

Não me aborreças.

DOUTOR

Confessas então?

VALENTIM

És divertido como os teus protestos de virtuoso! Aposto que me queres fazer crer no desinteresse das tuas visitas a D. Carlota?

DOUTOR

Não.

VALENTIM

Ah!

DOUTOR

Sou hoje mais assíduo do que era há um mês, e a razão é que há um mês que começaste a fazer-lhe corte.

VALENTIM

Já sei: não me queres perder de vista.

DOUTOR

Presumido! Eu sou lá inspetor dessas coisas? Ou antes, sou; mas o sentimento que me leva a estar presente a essa batalha pausada e paciente está muito longe do que pensas; estudo o amor.

VALENTIM

Somos então os teus compêndios?

DOUTOR

É verdade.

VALENTIM

E o que tens aprendido?

DOUTOR

Descobri que o amor é uma pescaria...

VALENTIM

Queres saber de uma coisa? Estão prosaicos como os teus libelos.

DOUTOR

Descobri que o amor é uma pescaria...

VALENTIM

Vai-te com os diabos!

DOUTOR

Descobri que o amor é uma pescaria. O pescador senta-se sobre um penedo, à beira do mar. Tem ao lado uma cesta com iscas; vai pondo uma por uma no anzol, e atira às águas a pérfida linha. Assim gasta horas e dias até que o descuidado filho das águas agarra no anzol, ou não agarra e...

VALENTIM

És um tolo.

DOUTOR

Não contesto; pelo interesse que tomo por ti. Realmente dói-me ver-te há tantos dias exposto ao sol, sobre o penedo, com o caniço na mão, a gastar as tuas iscas e a tua saúde quero dizer, a tua honra.

VALENTIM

A minha honra?

DOUTOR

A tua honra, sim. Pois para um homem de senso e um tanto sério o ridículo não é uma desonra? Tu estás ridículo. Não há um dia em que não venhas gastar quatro, cinco horas a cercar esta viúva de galanteios e atenções, acreditando talvez tiver adiantado muito, mas estando ainda hoje como quando começaste. Olha, há Penélopes da virtude e Penélopes do galanteio. Umas fazem e desmancham teias por terem muito juízo; outras as fazem e desmancham por não terem nenhum.

VALENTIM

Não deixas de ter tal ou qual razão.

DOUTOR

Ora, graças a Deus!

VALENTIM

Devo, porém prevenir-te de uma coisa: é que ponho nesta conquista a minha honra. Jurei aos meus deuses casar-me com ela e hei de manter o meu juramento.

DOUTOR

Virtuoso romano!

VALENTIM

Faço o papel de Sísifo. Rolo a minha pedra pela montanha; quase a chegar com ela ao cimo, uma mão invisível fá-la despenhar de novo, e aí volto a repetir o mesmo trabalho. Se isto é um infortúnio, não deixa de ser uma virtude.

DOUTOR

A virtude da paciência. Empregavas melhor essa virtude em fazer palitos do que em fazer a roda a esta namoradeira. Sabes o que aconteceu aos companheiros de Ulisses passando pela ilha de Circe? Ficaram transformados em porcos. Melhor sorte teve Actéon que por espreitar Diana no banho passou de homem a veado. Prova evidente de que é melhor pilhá-las no banho do que lhes andar a roda nos tapetes da sala.

VALENTIM

Passas de prosaico a cínico.

DOUTOR

É uma modificação. Tu estás sempre o mesmo ridículo.



Cena II

OS MESMOS, INOCÊNCIO (trazido por um criado)

INOCÊNCIO

Oh!

DOUTOR

(baixo a Valentim)

Chega o teu competidor.

VALENTIM

(baixo)

Não me vexes.

INOCÊNCIO

Meus senhores! Já por cá? Madrugaram hoje!

DOUTOR

É verdade. E V. S.?

INOCÊNCIO

Como está vendo. Levanto-me sempre com o sol.

DOUTOR

Se V. S. é outro.

INOCÊNCIO

(não compreendendo)

Outro quê? Ah! Outro sol! Este doutor tem umas expressões tão... fora do vulgar! Ora veja; a mim ainda ninguém se lembrou de dizer isto. Sr. Doutor, V. S. há de tratar de um negócio que trago pendente no foro. Quem fala assim é capaz de seduzir a própria lei!

DOUTOR

Obrigado!

INOCÊNCIO

Onde está a encantadora D. Carlota? Trago-lhe este ramalhete que eu próprio colhi e arranjei. Olhem como estas flores estão bem combinadas: rosas, paixão; açucenas, candura. Que tal?

DOUTOR

Engenhoso!

INOCÊNCIO

(dando-lhe o braço)

Agora ouça, Sr. Doutor. Decorei umas quatro palavras para dizer ao entregar-lhe estas flores. Veja se condizem com o assunto.

DOUTOR

Sou todo ouvidos.

INOCÊNCIO

"Estas flores são um presente que a primavera faz à sua irmã por intermédio do mais ardente admirador de ambas." Que tal?

DOUTOR

Sublime! (Inocêncio ri-se à socapa) Não é da mesma opinião?

INOCÊNCIO

Pudera não ser sublime: se eu próprio copiei isto de um Secretário dos Amantes!

DOUTOR

Ah!

VALENTIM

(baixo ao Doutor)

Gabo-te a paciência!

DOUTOR

(dando-lhe o braço)

Pois que tem! É miraculosamente tolo. Não é da mesma espécie que tu...

VALENTIM

Cornélio!

DOUTOR

Descansa; é de outra muito pior.


Cena III

OS MESMOS, CARLOTA

CARLOTA

Perdão, meus senhores, de havê-los feito esperar... (distribui apertos de mão)

VALENTIM

Nós é que lhe pedimos desculpa de havermos madrugado deste modo...

DOUTOR

A mim, traz-me um motivo justificável.

CARLOTA

(rindo)

Ver-me? (vai sentar-se)

DOUTOR

Não.

CARLOTA

Não é um motivo justificável, esse?

DOUTOR

Sem dúvida; incomodá-la é que o não é. Ah! Minha senhora, eu aprecio mais do que nenhum outro o despeito que deve causar a uma moça uma interrupção no serviço da toilette. Creio que é coisa tão séria como uma quebra de relações diplomáticas.

CARLOTA

O Sr. Doutor graceja e exagera. Mas qual é esse motivo que justifica a sua entrada em minha casa, há esta hora?

DOUTOR

Venho receber as suas ordens acerca da representação desta noite.

CARLOTA

Que representação?

DOUTOR

Canta-se o Trovador.

INOCÊNCIO

Bonita peça!

DOUTOR

Não pensa que deve ir?

CARLOTA

Sim, e agradeço-lhe a sua amável lembrança. Já sei que vem oferecer-me o seu camarote. Olhe, há de desculpar-me este descuido, mas prometo que vou quanto antes tomar uma assinatura.

INOCÊNCIO

(a Valentim)

Ando desconfiado do Doutor!

VALENTIM

Por quê?

INOCÊNCIO

Veja como ela o trata! Mas eu vou desbancá-lo, com minha frase do Secretário dos Amantes... (indo a Carlota) Minha senhora, estas flores são um presente que a primavera faz à sua irmã...

DOUTOR

(completando a frase)

Por intermédio do mais ardente admirador de ambas.

INOCÊNCIO

Sr. Doutor!

CARLOTA

O que é?

INOCÊNCIO

(baixo)

Isto não se faz! (a Carlota) Aqui tem minha senhora...

CARLOTA

Agradecida. Por que se retirou ontem tão cedo? Não lho quis perguntar... de boca; mas creio que o interroguei com o olhar.

INOCÊNCIO

(no cúmulo da satisfação)

De boca?... Com o olhar?... Ah! Queira perdoar minha senhora... mas um motivo imperioso...

DOUTOR

Imperioso... não é delicado.

CARLOTA

Não exijo saber o motivo; supus que se houvesse passado alguma coisa que o desgostasse...

INOCÊNCIO

Qual, minha senhora; o que se poderia passar? Não estava eu diante de V. Exa. para consolar-me com seus olhares de algum desgosto que houvesse? E não houve nenhum.

CARLOTA

(ergue-se e bate-lhe com o leque no ombro)

Lisonjeiro!

DOUTOR

(descendo entre ambos)

V. Exa. há de desculpar-me se interrompo uma espécie de idílio com uma coisa prosaica, ou antes, com outro idílio, de outro gênero, um idílio do estômago; o almoço...

CARLOTA

Almoça conosco?

DOUTOR

Oh! Minha senhora, não seria capaz de interrompê-la; peço simplesmente licença para ir almoçar com um desembargador da relação a quem tenho de prestar umas informações.

CARLOTA

Sinto que na minha perda, ganhe um desembargador; não sabe como odeio a toda essa gente do foro; faço apenas uma exceção.

DOUTOR

Sou eu.

CARLOTA

(sorrindo)

É verdade. Donde concluiu?

DOUTOR

Estou presente!

CARLOTA

Maldoso!

DOUTOR

Fica, não, Sr. Inocêncio?

INOCÊNCIO

Vou. (baixo ao Doutor) Estalo de felicidade!

DOUTOR

Até logo!

INOCÊNCIO

Minha senhora!



Cena IV

CARLOTA, VALENTIM

CARLOTA

Ficou?

VALENTIM

(indo buscar o chapéu)

Se a incomodo...

CARLOTA

Não. Dá-me prazer até. Ora, por que há de ser tão suscetível a respeito de tudo o que lhe digo?

VALENTTM

É muita bondade. Como não quer que seja suscetível? Só depois de estarmos a sós é que V. Exa. se lembra de mim. Para um velho gaiteiro acham V. Exa. palavras cheias de bondade e sorrisos cheios de doçura.

CARLOTA

Deu-lhe agora essa doença? (vai sentar-se junto à mesa)

VALENTIM

(senta-se junto à mesa defronte de Carlota)

Oh! Não zombe minha senhora! Estou certo de que os mártires romanos prefeririam a morte rápida à luta com as feras do circo. O seu sarcasmo é uma fera indomável; V. Exa. tem certeza disso e não deixa de lançá-lo em cima de mim.

CARLOTA

Então sou terrível? Confesso que ainda agora o sei. (uma pausa) Em que cisma?

VALENTIM

Eu?... em nada!

CARLOTA

Interessante colóquio!

VALENTIM

Devo crer que não faço uma figura nobre e séria. Mas não me importa isso! A seu lado eu afronto todos os sarcasmos do mundo. Olhe, eu nem sei o que penso, nem sei o que digo. Ridículo que pareça, sinto-me tão elevado o espírito que chego a supor em mim algum daqueles toques divinos com que a mão dos deuses elevava os mortais e lhes inspirava forças e virtudes fora do comum.

CARLOTA

Sou eu a deusa...

VALENTIM

Deusa, como ninguém sonhara nunca; com a graça de Vênus e a majestade de Juno. Sei eu mesmo defini-la? Posso eu dizer em língua humana o que é esta reunião de atrativos únicos feitos pela mão da natureza como uma prova suprema do seu poder? Dou-me por fraco, certo de que nem pincel nem lira poderão fazer mais do que eu.

CARLOTA

Oh! É demais! Deus me livre de tomá-lo por espelho. Os meus são melhores. Dizem coisas menos agradáveis, porém mais verdadeiras.

VALENTIM

Os espelhos são obras humanas; imperfeitos, como todas as obras humanas. Que melhor espelho, quer V. Exa., que uma alma ingênua e cândida?

CARLOTA

Em que corpo encontrarei... esse espelho?

VALENTIM

No meu.

CARLOTA

Supõe-se cândido e ingênuo?

VALENTIM

Não me suponho, sou.

CARLOTA

É por isso que traz perfumes e palavras que embriagam? Se há candura é em querer fazer-me crer...

VALENTIM

Oh! Não queira V. Exa. trocar os papéis. Bem sabe que os seus perfumes e as suas palavras é que embriagam. Se eu falo um tanto diversamente do comum é porque falam em mim o entusiasmo e a admiração. Quanto a V. Exa. basta abrir os lábios para deixar cair dele aromas e filtros cujo segredo só a natureza conhece.

CARLOTA

Estimo antes vê-lo assim. (começa a desenhar distraidamente em um papel)

VALENTIM

Assim... como?

CARLOTA

Menos... melancólico.

VALENTIM

É esse o caminho do seu coração?

CARLOTA

Queria que eu própria lho indicasse? Seria trair-me, e tirava-lhe a graça e a glória de encontrá-lo por seus próprios esforços.

VALENTIM

Onde encontrarei um roteiro?...

CARLOTA

Isso não tinha graça! A glória está em achar o desconhecido depois da luta e do trabalho... Amar e fazer-se amar por um roteiro... oh! Que coisa de mau gosto!

VALENTIM

Prefiro esta franqueza. Mas V. Exa. deixa-me no meio de uma encruzilhada com quatro ou cinco caminhos diante de mim, sem saber qual hei de tomar. Acha que isto é de coração compassivo?

CARLOTA

Ora! Siga por um deles, à direita ou à esquerda.

VALENTIM

Sim, para chegar ao fim e encontrar um muro; voltar, tomar depois por outro...

CARLOTA

E encontrar outro muro? É possível. Mas a esperança acompanha os homens e com a esperança, neste caso, a curiosidade. Enxugue o suor, descanse um pouco, e volte a procurar o terceiro, o quarto, o quinto caminho, até encontrar o verdadeiro. Suponho que todo o trabalho se compensará com o achado final.

VALENTIM

Sim. Mas, se depois de tanto esforço for encontrar-me no verdadeiro caminho com algum outro viandante de mais tino e fortuna?

CARLOTA

Outro?... que outro? Mas... isto é uma simples conversa... O Sr. faz-me dizer coisas que não devo... (cai o lápis ao chão, Valentim apressa-se em apanhá-lo e ajoelha nesse ato).

CARLOTA

Obrigada. (vendo que ele continua ajoelhado) Mas levante-se!

VALENTIM

Não seja cruel!

CARLOTA

Faça o favor de levantar-se!

VALENTIM

(levantando-se)

É preciso pôr um termo a isto!

CARLOTA

(fingindo-se distraída)

A isto o quê?

VALENTIM

V. Exa. é de um sangue-frio de matar!

CARLOTA

Queria que me fervesse o sangue? Tinha razão para isso. A que propósito fez esta cena de comédia?

VALENTIM

V. Exa. chama a isto comédia?

CARLOTA

Alta comédia está entendida. Mas que é isto? Está com lágrimas nos olhos?

VALENTIM

Eu? ora... ora... Que lembrança!

CARLOTA

Quer que lhe diga? Está ficando ridículo.

VALENTIM

Minha senhora!

CARLOTA

Oh! Ridículo! Ridículo!

VALENTIM

Tem razão. Não devo parecer outra coisa a seus olhos! O que sou eu para V. Exa.? Um ente vulgar, uma fácil conquista que V. Exa. entretém, ora animando, ora repelindo, sem deixar nunca conceber esperanças fundadas e duradouras. O meu coração virgem deixou-se arrastar. Hoje, se quisesse arrancar de mim este amor, era preciso arrancar com ele a vida. Oh! Não ria que é assim!

CARLOTA

Sinto que não possa ouvi-lo com interesse.

VALENTIM

Por que motivo havia de me ouvir com interesse?

CARLOTA

Não é por ter a alma seca; é por não acreditar nisso.

VALENTIM

Não acredita?

CARLOTA

Não.

VALENTIM

(esperançoso)

E se acreditasse?

CARLOTA

(com indiferença)

Se acreditasse, acreditava!

VALENTIM

Oh! É cruel!

CARLOTA

(depois de um silêncio)

Que é isso? Seja forte! Se não por si, ao menos pela posição esquerda em que me coloca.

VALENTIM

(sombrio)

Serei forte! Fraco no parecer de alguns... forte no meu... Minha senhora!

CARLOTA

(assustada)

Aonde vai?

VALENTIM

Até... minha casa! Adeus! (sai arrebatadamente. Carlota pára estacada; depois vai ao fundo, volta ao meio da cena, vai à direita; entra o Doutor)



Cena V

CARLOTA, o DOUTOR

DOUTOR

Não me dirá minha senhora, o que tem Valentim que passou por mim como um raio, agora, na escada?

CARLOTA

Eu sei! Ia mandar em procura dele. Disse-me aqui umas palavras ambíguas, estava exaltado, creio que...

DOUTOR

Que se vai matar?... (correndo pares a porta) Faltava mais esta!... (estaca) Não, não se há de matar!

CARLOTA

Ah! Por quê?

DOUTOR

Porque mora longe. No caminho há de refletir e mudar de parecer. Os olhos das damas já perderam o condão de levar um pobre diabo a sepultura; raros casos provam uma diminuta exceção.

CARLOTA

De que olhos e de que condão me fala?

DOUTOR

Do condão de seus olhos, minha senhora! Mas que influência é essa que V. Exa. exerce sobre o espírito de quantos se deixam apaixonar por seus encantos? A um inspira a idéia de matar-se; a outro, exalta-o de tal modo, com algumas palavras e um toque de seu leque, que quase chega a ser causa de um ataque apoplético!

CARLOTA

Está-me falando grego!

DOUTOR

Quer português, minha senhora? Vou traduzir o meu pensamento. Valentim é meu amigo. É um rapaz, não direi virgem de coração, mas com tendências às paixões de sua idade. V. Exa. por sua grata e beleza inspirou-lhe, ao que parece, um desses amores profundos de que os romances dão exemplo. Com vinte e cinco anos, inteligente, benquisto, podia fazer um melhor papel que o de namorado sem ventura. Graças a V. Exa., todas as suas qualidades estão anuladas: o rapaz não pensa, não vê, não conhece, não compreende ninguém mais que não seja V. Exa.

CARLOTA

Pára aí a fantasia?

DOUTOR

Não, senhora. Ao seu carro atrelou-se com o meu amigo, um velho, um velho, minha senhora, que, com o fim de lhe parecer melhor, pinta a coroa venerável de seus cabelos brancos. De sério que era, fê-lo V. Exa. uma figurinha de papelão, sem vontade nem ação própria. Destes sei eu; ignoro se mais alguns dos que freqüentam esta casa andam atordoados como estes dois. Creio minha senhora, que lhe falei no português mais vulgar e próprio para me fazer entender.

CARLOTA

Não sei até que ponto é verdadeira toda essa história, mas consinta que lhe observe quanto andou errado em bater à minha porta. Que lhe posso eu fazer? Sou eu culpada de alguma coisa? A ser verdade isso que contou a culpa é da natureza que os fez fáceis de amar, e a mim, me fez... bonita?

DOUTOR

Pode dizer mesmo — encantadora.

CARLOTA

Obrigada!

DOUTOR

Em troca do adjetivo deixe acrescentar outro não menos merecido: namoradeira.

CARLOTA

Hein?

DOUTOR

Na-mo-ra-dei-ra!

CARLOTA

Está dizendo coisas que não têm senso comum.

DOUTOR

O senso comum é comum a dois modos de entender. É mesmo a mais de dois. É uma desgraça que nos achemos em divergência.

CARLOTA

Mesmo que fosse verdade não era delicado dizer...

DOUTOR

Esperava por essa. Mas V. Exa. esquece que eu, lúcido como estou hoje, já tive os meus momentos de alucinação. Já fiei como Hércules a seus pés. Lembra-se? Foi há três anos. Incorrigível a respeito de amores, tinha razões para estar curado, quando vim cair em suas mãos. Alguns alopatas costumam mandar chamar os homeopatas nos últimos momentos de um enfermo e há casos de salvação para o moribundo. V. Exa. serviu-me de homeopatia, desculpe a comparação; deu-me uma dose de veneno tremenda, mas eficaz; desde esse tempo fiquei curado.

CARLOTA

Admiro a sua facúndia! Em que tempo padeceu dessa febre de que tive a ventura de curá-lo?

DOUTOR

Já tive a honra de dizer que foi há três anos.

CARLOTA

Não me recordo. Mas considero-me feliz por ter conservado ao foro um dos advogados mais distintos da capital.

DOUTOR

Pode acrescentar: e à humanidade um dos homens mais úteis. Não se ria, sou um homem útil.

CARLOTA

Não me rio. Conjecturo em que se empregará a sua utilidade.

DOUTOR

Vou auxiliar a sua penetração. Sou útil pelos serviços que presto aos viajantes novéis relativamente ao conhecimento das costas e dos perigos do curso marítimo; indico os meios de chegar sem maior risco à ilha desejada de Citera.

CARLOTA

Ah!

DOUTOR

Essa exclamação é vaga e não me indica se V. Exa. está satisfeita ou não com a minha explicação. Talvez não acredite que eu possa servir aos viajantes?

CARLOTA

Acredito. Acostumei-me a olhá-lo como a verdade nua e crua.

DOUTOR

É o que dizia há bocado aquele doido Valentim.

CARLOTA

A que propósito dizia?...

DOUTOR

A que propósito? Queria que fosse a propósito da guerra dos Estados Unidos? Da questão do algodão? Do poder temporal? Da revolução na Grécia? Foi a respeito da única coisa que nos pode interessar, a ele, como marinheiro novel, e a mim, como capitão experimentado.

CARLOTA

Ah! Foi...

DOUTOR

Mostrei-lhe os pontos negros do meu roteiro.

CARLOTA

Creio que ele não ficou convencido...

DOUTOR

Tanto não, que se ia deitando ao mar.

CARLOTA

Ora, venha cá. Falemos um momento sem paixão nem rancor. Admito que o seu amigo ande apaixonado por mim. Quero admitir também que eu seja uma namoradeira...

DOUTOR

Perdão: uma encantadora namoradeira...

CARLOTA

Dentada de morcego; aceito.

DOUTOR

Não; atenuante e agravante; sou advogado!

CARLOTA

Admito isso tudo. Não me dirá donde tira o direito de intrometer-se nos atos alheios, e de impor as suas lições a uma pessoa que o admira e estima, mas que não é nem sua irmã, nem sua pupila?

DOUTOR

Donde? Da doutrina cristã: ensino os que erram.

CARLOTA

A sua delicadeza não me há de incluir entre os que erram.

DOUTOR

Pelo contrário; dou-lhe um lugar de honra: é a primeira.

CARLOTA

Sr. Doutor!

DOUTOR

Não se zangue minha senhora. Todos erram; mas V. Exa. erra muito. Não me dirá de que serve o que aproveita usar uma mulher bonita de seus encantos para espreitar um coração de vinte e cinco anos e atraí-lo com as suas cantilenas, sem outro fim mais do que contar adoradores e dar um público testemunho do que pode a sua beleza? Acha que é bonito? Isto não revolta? (movimento de Carlota)

CARLOTA

Por minha vez pergunto: donde lhe vem o direito de pregar-me sermões de moral?

DOUTOR

Não há direito escrito para isto, é verdade. Mas, eu que já tentei trincar o cacho de uvas pendente, não faço como a raposa da fábula, fico ao pé da parreira para dizer ao outro animal que vier: "Não sejas tolo! Não as alcançarás com o seu focinho!" e à parreira impassível: "Seca as tuas uvas ou deixa-as cair; é melhor do que tê-las a fazer cobiça às raposas avulsas!" É o direito da desforra!

CARLOTA

Ia-me zangando. Fiz mal. Com o Sr. Doutor é inútil discutir: fala-se pela razão, responde pela parábola.

DOUTOR

A parábola é a razão do evangelho, e o evangelho é o livro que mais tem convencido.

CARLOTA

Por tais disposições vejo que não deixa o posto de sentinela dos corações alheios?

DOUTOR

Avisador de incautos; é verdade.

CARLOTA

Pois declaro que dou às suas palavras o valor que merecem.

DOUTOR

Nenhum?

CARLOTA

Absolutamente nenhum. Continuarei a receber com a mesma afabilidade o seu amigo Valentim.

DOUTOR

Sim, minha senhora!

CARLOTA

E ao Doutor também.

DOUTOR

É magnanimidade.

CARLOTA

E ouvirei com paciência evangélica as suas prédicas não encomendadas.

DOUTOR

E eu pronto a proferi-las. Ah! Minha senhora, se as mulheres soubessem quanto ganhariam se não fossem vaidosas! É negócio de cinqüenta por cento.

CARLOTA

Estou resignada: crucifique-me!

DOUTOR

Em outra ocasião.

CARLOTA

Para ganhar forças quer almoçar segunda vez?

DOUTOR

Há de consentir que recuse.

CARLOTA

Por motivo de rancor?

DOUTOR

(pondo a mão no estômago)

Por motivo de incapacidade. (cumprimenta e dirige-se à porta. Carlota sai pelo fundo. Entra Valentim).



Cena VI

O DOUTOR, VALENTIM

DOUTOR

Oh! A que horas é o enterro?

VALENTIM

Que enterro? De que enterro me falas tu?

DOUTOR

Do teu. Não ias procurar o descanso, meu Werther?

VALENTIM

Ah! Não me fales! Esta mulher... onde está ela?

DOUTOR

Almoça.

VALENTIM

Sabes que a amo. Ela é invencível. Às minhas palavras amorosas respondeu com a frieza do sarcasmo. Exaltei-me e cheguei a proferir algumas palavras que poderiam indicar, da minha parte, uma intenção trágica. O ar da rua fez-me bem; acalmei-me...

DOUTOR

Tanto melhor!...

VALENTIM

Mas eu sou teimoso.

DOUTOR

Pois ainda crês?...

VALENTIM

Ouve: sinceramente aflito e apaixonado, apresentei-me a D. Carlota como era. Não houve meio de torná-la compassiva. Sei que não me ama; mas creio que não está longe disso; acha-se em um estado que basta uma faísca para acender-se-lhe no coração a chama do amor. Se não se comoveu à franca manifestação do meu afeto, há de comover-se a outro modo de revelação. Talvez não se incline ao homem poético e apaixonado; há de inclinar-se ao heróico ou até cético... ou a outra espécie. Vou tentar um por um.

DOUTOR

Muito bem. Vejo que raciocinas; é porque o amor e a razão dominam em ti com força igual. Graças a Deus, mais algum tempo e o predomínio da razão será certo.

VALENTIM

Achas que faço bem?

DOUTOR

Não acho, não, senhor!

VALENTIM

Por quê?

DOUTOR

Amas muito esta mulher? É próprio da tua idade e da força das coisas. Não há caso que desminta esta verdade reconhecida e provada: que a pólvora e o fogo, uma vez próximos fazem explosão.

VALENTIM

É uma doce fatalidade esta!

DOUTOR

Ouve-me calado. A que queres chegar com este amor? Ao casamento; é honesto e digno de ti. Basta que ela se inspire da mesma paixão, e a mão do himeneu virá converter em uma só as duas existências. Bem. Mas não te ocorre uma coisa: é que esta mulher, sendo uma namoradeira, não pode tornar-se vestal muito cuidadosa da ara matrimonial.

VALENTIM

Oh!

DOUTOR

Protestas contra isto? É natural. Não seria o que és se aceitasses a primeira vista a minha opinião. É por isso que te peso reflexão e calma. Meu caro, o marinheiro conhece as tempestades e os navios; eu conheço os amores e as mulheres; mas avalio no sentido inverso do homem do mar; as escumas veleiras são preferidas pelo homem do mar, eu voto contra as mulheres veleiras.

VALENTIM

Chamas a isto uma razão?

DOUTOR

Chamo a isto uma opinião. Não é a tua! Há de sê-lo com o tempo. Não me faltará ocasião de chamar-te ao bom caminho. A tempo o ferro e mezinha, disse Sá de Miranda. Empregarei o ferro.

VALENTIM

O ferro?

DOUTOR

O ferro. Só as grandes coragens é que se salvam. Devi a isso salvar-me das unhas deste gavião disfarçado de quem queres fazer tua mulher.

VALENTIM

O que estas dizendo?

DOUTOR

Cuidei que sabias. Também eu já trepei pela escada de seda para cantar a cantiga do Romeu à janela de Julieta.

VALENTIM

Ah!

DOUTOR

Mas não passei da janela. Fiquei ao relento, do que me resultou uma constipação.

VALENTIM

É natural. Pois como havia ela de amar a um homem que quer levar tudo pela razão fria dos seus libelos e embargos de terceiro?

DOUTOR

Foi isso que me salvou; os amores como os desta mulher precisam um tanto ou quanto de chicana. Passo pelo advogado mais chicaneiro do foro; imagina se a tua viúva podia haver-se comigo! Veio o meu dever com embargos de terceiro e eu ganhei a demanda. Se, em vez de comer tranqüilamente a fortuna de teu pai, tivesses cursado a academia de S. Paulo ou Olinda, estavas como eu, armado de broquel e cota de malhas.

VALENTIM

É o que te parece. Podem acaso as ordenações e o código penal contra os impulsos do coração? É querer reduzir a obra de Deus à condição da obra dos homens. Mas bem vejo que é o advogado mais chicaneiro do foro.

DOUTOR

E, portanto, o melhor.

VALENTIM

Não, o pior, porque não me convenceste.

DOUTOR

Ainda não?

VALENTIM

Nem me convencerás nunca.

DOUTOR

Pois é pena!

VALENTIM

Vou tentar os meios que tenho em vista; se nada alcançar talvez me resigne à sorte.

DOUTOR

Não tentes nada. Anda jantar comigo e vamos à noite ao teatro.

VALENTIM

Com ela? Vou.

DOUTOR

Nem me lembrava que a tinha convidado.

VALENTIM

Espero que hei de vencer.

DOUTOR

Com que contas? Com a tua estrela? Boa fiança!

VALENTIM

Conto comigo.

DOUTOR

Melhor ainda!



Cena VII

DOUTOR, VALENTIM, INOCÊNCIO

INOCÊNCIO

O corredor está deserto.

DOUTOR

Os criados servem à mesa. D. Carlota está almoçando. Está melhor?

INOCÊNCIO

Um tanto.

VALENTIM

Esteve doente, Sr. Inocêncio?

INOCÊNCIO

Sim, tive uma ligeira vertigem. Passou. Efeitos do amor... quero dizer... do calor.

VALENTIM

Ah!

INOCÊNCIO

Pois olhe, já sofri calor de estalar passarinho. Não sei como isto foi. Enfim, são coisas que dependem das circunstâncias.

VALENTIM

Houve circunstâncias?

INOCÊNCIO

Houve... (sorrindo) Mas não as digo... não!

VALENTIM

É segredo?

INOCÊNCIO

Se é!

VALENTIM

Sou discreto como uma sepultura; fale!

INOCÊNCIO

Oh! não! É um segredo meu e de mais ninguém... ou a bem dizer, meu e de outra pessoa... ou não, meu só!

DOUTOR

Respeitamos os segredos, seus ou de outros!

INOCÊNCIO

V. S. é um portento! Nunca hei de esquecer que me comparou ao sol! A certos respeitos andou avisado: eu sou uma espécie de sol, com uma diferença, é que não nasço para todos, nasço para todas!

DOUTOR

Oh! Oh!

VALENTIM

Mas V. S. está mais na idade de morrer que de nascer.

INOCÊNCIO

Apre lá! Com trinta e oito anos, a idade viril! V. S. é que é uma criança!

VALENTIM

Enganaram-me então. Ouvi dizer que V. S. fora dos últimos a beijar a mão de Dom João VI, quando daqui se foi, e que nesse tempo era já taludo...

INOCÊNCIO

Há quem se divirta em caluniar a minha idade. Que gente invejosa! Aonde vai, Doutor?

DOUTOR

Vou sair.

VALENTIM

Sem falar a D. Carlota?

DOUTOR

Já me havia despedido quando chegaste. Hei de voltar. Até logo. Adeus, Sr. Inocêncio!

INOCÊNCIO

Felizes tardes, Sr. Doutor!



Cena VIII

VALENTIM, INOCÊNCIO

INOCÊNCIO

É uma pérola este doutor! Delicado e bem falante! Quando abre a boca parece um deputado na assembléia ou um cômico na casa da ópera!

VALENTIM

Com trinta e oito anos e ainda fala na casa da ópera!

INOCÊNCIO

Parece que V. S. ficou engasgado com os meus trinta e oito anos! Supõe talvez que eu seja um Matusalém? Está enganado. Como me vê, faço andar à roda muita cabecinha de moça. A propósito, não acha esta viúva uma bonita senhora?

VALENTIM

Acho.

INOCÊNCIO

Pois é da minha opinião! Delicada, graciosa, elegante, faceira, como ela só... Ah!

VALENTIM

Gosta dela?

INOCÊNCIO

(com indiferença)

Eu? Gosto. E V. S.?

VALENTIM

(com indiferença)

Eu? Gosto.

INOCÊNCIO

(com indiferença)

Assim, assim?

VALENTIM

(com indiferença)

Assim, assim.

INOCÊNCIO

(contentíssimo, apertando-lhe a mão)

Ah! Meu amigo!



Cena IX

VALENTIM, INOCÊNCIO, CARLOTA

VALENTIM

Aguardávamos a sua chegada com a sem-cerimônia de pessoas íntimas.

CARLOTA

Oh! Fizeram muito bem! (senta-se)

INOCÊNCIO

Não ocultarei que estava ansioso pela presença de V. Exa.

CARLOTA

Ah! Obrigada... Aqui estou! (um silêncio) Que novidades há, Sr. Inocêncio?

INOCÊNCIO

Chegou o paquete.

CARLOTA

Ah! (outro silêncio) Ah! Chegou o paquete? (levanta-se)

INOCÊNCIO

Já tive a honra de...

CARLOTA

Provavelmente traz notícias de Pernambuco?... do cólera?...

INOCÊNCIO

Costuma a trazer...

CARLOTA

Vou mandar ver cartas... tenho um parente no Recife... Tenham a bondade de esperar...

INOCÊNCIO

Por quem é... não se incomode. Vou eu mesmo.

CARLOTA

Ora! Tinha que ver...

INOCÊNCIO

Se mandar um escravo ficará na mesma... demais, eu tenho relações com a administração do correio... O que talvez ninguém possa alcançar já e já, eu me encarrego de obter.

CARLOTA

A sua dedicação corta-me a vontade de impedi-lo. Se me faz o favor...

INOCÊNCIO

Pois não, até já! (beija-lhe a mão e sai)



Cena X

CARLOTA, VALENTIM

CARLOTA

Ah! Ah! Ah!

VALENTIM

V. Exa. ri-se?

CARLOTA

Acredita que foi para despedi-lo que o mandei ver cartas ao correio?

VALENTIM

Não ouso pensar...

CARLOTA

Ouse, porque foi isso mesmo.

VALENTIM

Haverá indiscrição em perguntar com que fim?

CARLOTA

Com o fim de poder interrogá-lo acerca do sentido de suas palavras quando daqui saiu.

VALENTIM

Palavras sem sentido...

CARLOTA

Oh!

VALENTIM

Disse algumas coisas... tolas!

CARLOTA

Está tão calmo para poder avaliar desse modo as suas palavras?

VALENTIM

Estou.

CARLOTA

Demais, o fim trágico que queria dar a uma coisa que começou por idílio... devia assustá-lo.

VALENTIM

Assustar-me? Não conheço o termo.

CARLOTA

É intrépido?

VALENTIM

Um tanto. Quem se expõe à morte não deve temê-la em caso nenhum.

CARLOTA

Oh! Oh! Poeta, e intrépido de mais a mais.

VALENTIM

Como lord Byron.

CARLOTA

Era capaz de uma segunda prova do caso de Leandro?

VALENTIM

Era. Mas eu já tenho feito coisas equivalentes.

CARLOTA

Matou algum elefante, algum hipopótamo?

VALENTIM

Matei uma onça.

CARLOTA

Uma onça?

VALENTIM

Pele malhada das cores mais vivas e esplêndidas; garras largas e possantes; olhar fulvo, peito largo e duas ordens de dentes afiados como espadas.

CARLOTA

Jesus! Esteve diante desse animal!

VALENTIM

Mais do que isso; lutei com ele e matei-o.

CARLOTA

Onde foi isso?

VALENTIM

Em Goiás.

CARLOTA

Conte essa história, novo Gaspar Correia.

VALENTIM

Tinha eu vinte anos. Andávamos a caça eu e mais alguns. Internamo-nos mais do que devíamos pelo mato. Eu levava comigo uma espingarda, uma pistola e uma faca de caça. Os meus companheiros afastaram-se de mim. Tratava de procurá-los quando senti passos... Voltei-me...

CARLOTA

Era a onça?

VALENTIM

Era a onça. Com o olhar fito sabre mim parecia disposta a dar-me o bote. Encarei-a, tirei cautelosamente a pistola e atirei sabre ela. O tiro não lhe fez mal. Protegido pelo fumo da pólvora, acastelei-me atrás de um tronco de árvore. A onça foi-me no encalço, e durante algum tempo andamos, eu e ela, a dançar à roda do tronco. Repentinamente levantou as patas e tentou esmagar-me abraçando a árvore, mais rápido que o raio, agarrei-lhe as mãos e apertei-a contra o tronco. Procurando escapar-me, a fera quis morder-me em uma das mãos; com a mesma rapidez tirei a faca de caca e cravei-lhe no pescoço; agarrei-lhe de novo a pata e continuei a apertá-la, até que os meus companheiros, orientados pelo tiro, chegaram ao lugar do combate.

CARLOTA

E mataram?...

VALENTIM

Não foi preciso. Quando larguei as mãos da fera, um cadáver pesado e tépido caiu no chão.

CARLOTA

Ora, mas isto é a história de um quadro da Academia!

VALENTIM

Só há um exemplar de cada feito heróico?

CARLOTA

Pois, deveras, matou uma onça?

VALENTIM

Conservo-lhe a pele como uma relíquia preciosa.

CARLOTA

É valente; mas pensando bem não sei de que vale ser valente.

VALENTIM

Oh!

CARLOTA

Palavra que não sei. Essa valentia fora do comum não é dos nossos dias. As proezas tiveram seu tempo; não me entusiasma essa luta do homem com a fera, que nos aproxima dos tempos bárbaros da humanidade. Compreendo agora a razão por que usa dos perfumes mais ativos; é para disfarçar o cheiro dos filhos do mato, que naturalmente há de ter encontrado mais de uma vez. Faz bem.

VALENTIM

Fera verdadeira é a que V. Exa. me atira com esse riso sarcástico. O que pensa então que possa excitar o entusiasmo?

CARLOTA

Ora, muita coisa! Não o entusiasmo dos heróis de Homero; um entusiasmo mais condigno nos nossos tempos. Não precisa ultrapassar as portas da cidade para ganhar títulos à admiração dos homens.

VALENTIM

V. Exa. acredita que seja uma verdade o aperfeiçoamento moral dos homens na vida das cidades?

CARLOTA

Acredito.

VALENTIM

Pois acredita mal. A vida das cidades estraga os sentimentos. Aqueles que eu pude ganhar e entreter na assistência das florestas perdi-os depois que entrei na vida tumultuária das cidades. V. Exa. ainda não conhece as mais verdadeiras opiniões.

CARLOTA

Dar-se-á caso que venha pregar contra o amor?...

VALENTIM

O amor! V. Exa. pronuncia essa palavra com uma veneração que parece estar falando de coisas sagradas! Ignora que o amor é uma invenção humana?

CARLOTA

Oh!

VALENTIM

Os homens, que inventaram tanta coisa, inventaram também este sentimento. Para dar justificação moral à união dos sexos inventou-se o amor, como se inventou o casamento para dar-lhe justificação legal. Esses pretextos, com o andar do tempo, tornaram-se motivos. Eis o que é o amor!

CARLOTA

É mesmo o senhor quem me fala assim?

VALENTIM

Eu mesmo.

CARLOTA

Não parece. Como pensa a respeito das mulheres?

VALENTIM

Aí é mais difícil. Penso muita coisa e não penso nada. Não sei como avaliar essa outra parte da humanidade extraída das costelas de Adão. Quem pode pôr leis ao mar? É o mesmo com as mulheres. O melhor é navegar descuidadamente, a pano largo.

CARLOTA

Isso é leviandade.

VALENTIM

Oh! Minha senhora!

CARLOTA

Chamo leviandade para não chamar despeito.

VALENTIM

Então há muito tempo que sou leviano ou ando despeitado, porque está é a minha opinião de longos anos. Pois ainda acredita na afeição íntima entre a descrença masculina e... dá licença? A leviandade feminina?

CARLOTA

É um homem perdido, Sr. Valentim. Ainda há santas afeições, crenças nos homens, e juízo nas mulheres. Não queira tirar a prova real pelas exceções. Some a regra geral e há de ver. Ah! Mas agora percebo!

VALENTIM

O quê?

CARLOTA

(rindo)

Ah! Ah! Ah! Ouça muito baixinho, para que nem as paredes possam ouvir: este não é ainda o caminho do meu coração, nem a valentia, tampouco.

VALENTIM

Ah! Tanto melhor! Volto ao ponto da partida e desisto da glória...

CARLOTA

Desanima? (entra o Doutor)

VALENTIM

Dou-me por satisfeito. Mas já se vê, como cavalheiro, sem rancor nem hostilidade. (entra Inocêncio)

CARLOTA

É arriscar-se a novas tentativas.

VALENTIM

Não.

CARLOTA

Não seja vaidoso. Está certo?

VALENTIM

Estou. E a razão é esta: quando não se pode atinar com o caminho do coração toma-se o caminho da porta. (cumprimenta e dirige-se para a porta)

CARLOTA

Ah — Pois que vá! — Estava aí Sr. Doutor? Tome cadeira.

DOUTOR

(baixo)

Com uma advertência: Há muito tempo que me fui pelo caminho da porta.

CARLOTA

(séria)

Prepararam ambos esta comédia?

DOUTOR

Comédia, com efeito, cuja moralidade Valentim incumbiu-se de resumir: — Quando não se pode atinar com o caminho do coração, deve-se tomar sem demora o caminho da porta. (saem o Doutor e Valentim)

CARLOTA

(vendo Inocêncio)

Pode sentar-se. (indica-lhe uma cadeira. Risonha) Como passou?

INOCÊNCIO

(senta-se meio desconfiado, mas levanta-se logo)

Perdão: eu também vou pelo caminho da porta! (sai. Carlota atravessa arrebatadamente a cena. Cai o pano)

FIM

Tu, só tu, puro amor - Teatro de Machado de Assis

Publicado originalmente em Revista Brasileira , Rio de Janeiro, 1880.

Tu só, tu, puro amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga...
Camões, Lusíadas, 3, CXIX.

O desfecho dos amores palacianos de Camões e de D. Catarina de Ataíde é o objeto da comédia, desfecho que deu lugar à subseqüente aventura de África, e mais tarde à partida para a Índia, donde o poeta devia regressar um dia com a imortalidade nas mãos. Não pretendi fazer um quadro da corte de D. João II, nem sei se o permitiam as proporções mínimas do escrito e a urgência da ocasião. Busquei sim haver-me de maneira que o poeta fosse contemporâneo de seus amores, não lhe dando feições épicas, e, por assim dizer, póstumas.

Na primeira impressão escrevi uma nota, que reproduzi na segunda, acrescentando-lhe alguma coisa explicativa. Como na cena primeira se trata da anedota que motivou o epigrama de Camões ao duque de Aveiro, disse eu ali que, posto se lhe não possa fixar data, usaria dela por me parecer um curioso rasgo de costumes. E aduzi: “Engana-se, creio eu, o Sr. Teófilo Braga, quando afirma que ela só podia ter ocorrido depois do regresso de Camões a Lisboa, alegando, para fundamentar essa opinião, que o título de duque de Aveiro foi criado em 1557. Digo que se engana o distinto escritor, porque eu encontro o duque de Aveiro, cinco anos antes, 1552, indo receber, na qualidade de embaixador, a princesa d. Joana, noiva do príncipe d. João (Veja Mem. e Doc. Anexos aos Anéis de d. João III, págs. 440 e 441); e, se Camões só em 1553 partiu para a Índia, não é impossível que o epigrama e o caso que lhe deu origem fossem anteriores.”

Temos ambos razão, o Sr. Teófilo Braga e eu. Com efeito, o ducado de Aveiro só foi criado formalmente em 1557, mas o agraciado usava o título desde muito antes, por mercê de D. João III: é o que confirma a própria carta régia de 30 de agosto daquele ano, textualmente inserta na Hist. Geneal... de D. Antônio Caetano de Souza, que cita em abono da asserção o testemunho de Andrade, na Crônica d’el-rei d, João III. Naquela mesma obra se lê (liv. IV, cap. V) que em 1551, na transladação dos ossos d’el-rei D, Manuel estivera presente o duque de Aveiro. Não é pois impossível que a anedota ocorresse antes da primeira ausência de Camões.

MACHADO DE ASSIS.

PERSONAGENS

CAMÕES
ANTÔNIO DE LIMA
CAMINHA
D. MANUEL DE PORTUGAL
D. CATARINA DE ATAÍDE
D. FRANCISCA DE ARAGÃO




Sala no paço



CENA I

CAMINHA, D. MANUEL DE PORTUGAL

(Caminha vem do fundo, da esquerda; vai a entrar pela porta da direita, quando lhe sai Manoel de Portugal, a rir).

CAMINHA — Alegre vindes, senhor D. Manuel de Portugal. Disse-vos El-rei alguma coisa graciosa, de certo...

D. MANUEL — Não; não foi El-rei. Adivinhai o que seria, se é que o não sabeis já.

CAMINHA — Que foi?

D. MANUEL — Sabeis o caso da galinha do duque de Aveiro?

CAMINHA — Não.

D. MANUEL — Não sabeis? — Pois é isto: uns versos mui galantes do nosso Camões. (Caminha estremece e faz um gesto de má vontade.) Uns versos como ele os sabe fazer. (À parte.) Doe-lhe a noticia. (Alto.) Mas, deveras não sabeis do encontro de Camões com o duque de Aveiro?

CAMINHA — Não.

D. MANUEL — Foi o próprio duque que mo contou agora mesmo, ao vir de estar com El-rei...

CAMINHA — Que houve então?

D. MANUEL — Eu vo-lo digo; achavam-se ontem, na igreja do Amparo, o duque e o poeta...

CAMINHA, com enfado. — O poeta! O poeta! Não é mais que engenhar aí uns poucos versos, para ser logo poeta! Desperdiçais o vosso entusiasmo, senhor D. Manuel. Poeta é o nosso Sá, o meu grande Sá! Mas, esse arruador, esse brigão de horas mortas...

D. MANUEL — Parece-vos então...?

CAMINHA — Que esse moço tem algum engenho, muito menos do que lhe diz a presunção dele e a cegueira dos amigos; algum engenho não lhe nego eu. Faz sonetos sofríveis. E canções... Digo-vos que li uma ou duas, não de todo mal alinhavadas. Pois então? Com boa vontade, mais esforço, menos soberba, gastando as noites, não a folgar pelas locandas de Lisboa, mas a meditar os poetas italianos, digo-vos que pode vir a ser...

D. MANUEL — Acabe.

CAMINHA — Está acabado: um poeta sofrível.

D. MANUEL — Deveras? Lembra-me que já isso mesmo lhe negastes.

CAMINHA, sorrindo. — No meu epigrama, não? E nego-lho ainda agora, se não fizer o que vos digo. Pareceu-vos gracioso o epigrama?Fi-lo por desenfado, não por ódio... Dizei, que tal vos pareceu ele?

D. MANUEL — Injusto, mas gracioso.

CAMINHA — Sim? Tenho em mui boa conta o vosso parecer. Algum tempo supus que me desdenháveis. Não era impossível que assim fosse. Intrigas da corte dão azo a muita injustiça; mas principalmente acreditei que fossem artes desse rixoso... Juro-vos que ele me tem ódio.

D. MANUEL — O Camões?

CAMINHA — Tem, tem...

D. MANUEL — Por quê?

CAMINHA — Não sei, mas tem. Adeus.

D. MANUEL — Ides-vos?

CAMINHA — Vou a El-rei, e depois ao meu senhor infante. (Corteja-o e dirige-se para a porta da direita. D. Manuel dirige-se para o fundo.)

D. Manuel, andando.

Eu já vi a taverneiro
vender vaca por carneiro...

CAMINHA, volta-se. — Recitais versos?... São vossos?... Não me negueis o gosto de os ouvir.

D. MANUEL — Meus não; são de Camões... (Repete, descendo a cena.)

Eu já vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro...

CAMINHA, sarcástico. — De Camões?... Galantes são. Nem Virgílio os daria melhores. Ora, fazei o favor de repetir comigo:

Eu já vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro...

— E depois vá, dizei-me o resto, que não quero perder iguaria de tão fino sabor.

D. MANUEL — O duque de Aveiro e o poeta encontraram-se ontem na igreja do Amparo. O duque prometeu ao poeta mandar-lhe uma galinha de sua mesa, mas só lhe mandou um assado. Camões retorquiu-lhe com estes versos, que o próprio duque me mostrou agora, a rir:

Eu já vi a taverneiro,
Vender vaca por carneiro.
Mas não vi, por vida minha,
vender vaca por galinha,
senão ao duque de Aveiro.

— Confessai, confessai senhor Caminha, vós que sois poeta, confessai que há aí certo pico, e uma simpleza de dizer... Não vale tanto de certo como os sonetos dele, alguns dos quais são sublimes, aquele por exemplo:

De amor escrevo, de amor trato e vivo...

ou este

Tanto de meu estado me acho incerto...

— Sabeis a continuação?

CAMINHA — Até lhe sei o fim:

Se me pergunta alguém porque assim ando
respondo que não sei, porém suspeito
que só porque vos vi, minha senhora.

— (Fitando-lhe muito os olhos.) Esta senhora... Sabeis vós, de certo, quem é esta senhora do poeta, como eu o sei, como o sabem todos... Naturalmente amam-se ainda muito?

D. Manuel, à parte. — Que quererá ele?

CAMINHA — Amam-se por força.

D. MANUEL — Cuido que não.

CAMINHA — Que não?

D. MANUEL — Acabou, como tudo acaba.

CAMINHA, sorrindo. — Anda lá; não sei se me dizeis tudo. Amigos sois, e não é impossível que também vós... Onde está a nossa gentil senhora D. Francisca de Aragão?

D. MANUEL — Que tem?

CAMINHA — Vede: um simples nome vos faz estremecer. Mas sossegai, que não sou vosso inimigo; mui ao contrário, amo-vos, e a ela também... e respeito-a muito. Um para o outro nascestes. Mas, adeus, faz-se tarde, vou ter com El-rei. (Sai pela direita.)




CENA II

DOM MANUEL DE PORTUGAL

— Este homem!... Este homem!... Como se os versos dele, duros e insossos... (Vai à porta por onde Caminha saiu e levanta o reposteiro.) Lá vai ele; vai cabisbaixo; rumina talvez alguma coisa. Que não sejam versos! (Ao fundo aparecem D. Antônio de Lima e D. Catarina de Ataíde.)




CENA III

D. MANUEL DE PORTUGAL, D. CATARINA DE ATAÍDE, D. ANTÔNIO DE LIMA

D. ANTÔNIO DE LIMA — Que espreitais aí, senhor D. Manuel.

D. MANUEL — Estava a ver o porte elegante do nosso Caminha. Não vades supor que era alguma dama. (Levanta o reposteiro.) Olhai, lá vai ele a desaparecer. Vai a El-rei.

D. ANTÔNIO — Também eu. Tu, não, minha boa Catarina. A rainha espera-te. (D. Catarina faz uma reverência e caminha para a porta da esquerda.) Vai, vai, minha gentil flor... (A D. Manuel.) Gentil, não a achais?

D. MANUEL — Gentilíssima.

D. ANTÔNIO — Agradece, Catarina.

D. CATARINA — Agradeço; mas o certo é que o senhor D. Manuel é rico de louvores...

D. MANUEL — Eu podia dizer que a natureza é que foi conosco pródiga de graças; mas, não digo; seria repetir mal aquilo que só poetas podem dizer bem. (D. Antônio fecha o rosto.) Dizem que também sou poeta, é verdade; não sei; faço versos. Adeus, senhor D. Antônio... (Corteja-os e sai. D. Catarina vai a entrar, à esquerda. D. Antônio detém-na.)




CENA IV

D. ANTÔNIO DE LIMA, D. CATARINA DE ATAÍDE

D. ANTÔNIO — Ouviste aquilo?

D. CATARINA, parando. — Aquilo?

D. ANTÔNIO — “Que só poetas podem dizer bem” foram as palavras dele. (D. Catarina aproxima-se.) Vês tu, filha? tão divulgadas andam já essas coisas, que até se dizem nas barbas de teu pai!

D. CATARINA — Senhor, um gracejo...

D. ANTÔNIO, enfadando-se. — Um gracejo injurioso, que eu não consinto, que não quero, que me dói... “Que só poetas podem dizer bem!” E que é poeta! Pergunta ao nosso Caminha o que é esse atrevido, o que vale a sua poesia... Mas, que seja outra e melhor, não a quero para mim, nem para ti. Não te criei para entregar-te às mãos do primeiro que passa, e lhe dá na cabeça haver-te.
D. CATARINA, procurando moderá-lo. — Meu pai...

D. ANTÔNIO — Teu pai e teu senhor!

D. CATARINA — Meu senhor e pai... juro-vos que... Juro-vos que vos quero e muito... Por quem sois, não vos irriteis contra mim!

D. ANTÔNIO — Jura que me obedecerás.

D. CATARINA — Não é essa a minha obrigação?

D. ANTÔNIO — Obrigação é, e a mais grave de todas. Olha-me bem, filha; eu amo-te como pai que sou. Agora, anda, vai.




CENA V

D. ANTÔNIO DE LIMA, D. CATARINA DE ATAÍDE, D. FRANCISCA DE ARAGÃO

D. ANTÔNIO — Mas não, não vás sem falar à senhora D. Francisca de Aragão, que aí nos aparece, fresca como a rosa que desabotoou agora mesmo, ou, como dizia a farsa do nosso Gil Vicente, que eu ouvi há tantos anos, por tempo do nosso sereníssimo senhor D. Manuel... Velho estou, minha formosa dama...

D. FRANCISCA — E que dizia a farsa?

D. ANTÔNIO — A farsa dizia:

É bonita como estrela,

Uma rosinha de Abril,

Uma frescura de maio,

Tão manhosa.

Tão sutil!

— Vede que a farsa adivinhava já a nossa D. Francisca de Aragão, uma frescura de maio, tão manhosa, tão sutil...

D. FRANCISCA — Manhosa, eu?

D. ANTÔNIO — E sutil. Não vos esqueça a rima, que é de lei. (Vai a sair pela porta da direita; aparece Camões.)




CENA VI

OS MESMOS, CAMÕES

D. CATARINA, à parte. — Ele!

D. FRANCISCA, baixo a D. Catarina. — Sossegai!

D. ANTÔNIO — Vinde cá, senhor poeta das galinhas. Já me chegou aos ouvidos o vosso lindo epigrama. Lindo, sim; e estou que não vos custaria mais tempo a fazê-lo do que eu a dizer-vos que me divertiu muito... E o duque? O duque, ainda não emendou a mão? Há de emendar, que não é nenhum mesquinho.

CAMÕES, alegremente. — Pois El-rei deseja o contrário...

D. ANTÔNIO — Ah! Sua Alteza falou-vos disso?... Contar-mo-eis em tempo. (A D. Catarina, com intenção). Minha filha e senhora, não ides ter com a rainha? Eu vou falar a El-rei. (D. Catarina corteja-os e dirige-se para a esquerda; D. Antônio sai pela direita.)




CENA VII

OS MESMOS, menos D. ANTÔNIO DE LIMA

(D. Catarina quer sair, D. Francisca de Aragão detém-na.)

D. FRANCISCA — Ficai, ficai...

D. CATARINA — Deixe-me ir!

CAMÕES — Fugis de mim?

D. CATARINA — Fujo... Assim o querem todos.

CAMÕES — Todos quem?

D. FRANCISCA, indo a Camões. — Sossegai. Tendes, na verdade, um gênio, uns espíritos... Que há de ser? Corre a mais e mais a notícia dos vossos amores... e o senhor D. Antônio, que é pai, e pai severo...

CAMÕES, vivamente a D. Catarina. — Ameaça-vos?

D. CATARINA — Não; dá-me conselhos... bons conselhos, meu Luís. Não vos quer mal, não quer... Vamos lá; eu é que sou desatinada. Mas passou. Dizei-nos lá esses versos de que faláveis há pouco. Um epigrama, não é? Há de ser tão bonito como os outros... menosum.

CAMÕES — Um?

D. CATARINA — Sim, o que fizestes a D. Guiomar de Blasfé.

CAMÕES, com desdém. — Que monta? Bem frouxos versos.

D. FRANCISCA — Não tanto; mas eram feitos a D. Guiomar, e os piores versos deste mundo são os que se fazem a outras damas. (A D. Catarina.) Acertei? (A Camões.) Ora, andai, vou deixar-vos; dizei o caso do vosso epigrama, não a mim, que já o sei de cor, porém a ela que ainda não sabe nada... E que foi que vos disse El-rei?

CAMÕES — El-rei viu-me, e dignou-se chamar-me; fitou-me um pouco a sua real vista, e disse com brandura: — «Tomara eu, senhor poeta, que todos os duques vos faltem com galinhas, por que assim nos alegrareis com versos tão chistosos.

D. FRANCISCA — Disse-vos isto? é um grande espírito El-rei!

D. CATARINA, a D. Francisca. — Não é? (A Camões.) E vós que lhe dissestes?

CAMÕES — Eu? nada... ou quase nada. Era tão inopinado louvor que me tomou a fala. E, contudo, se eu pudesse responder agora... agora que recobrei os espíritos... dir-lhe-ia que há aqui (leva a mão à fronte) alguma coisa mais do que simples versos de desenfado... dir-lhe-ia que... (Fica absorto um instante, depois olha alternadamente para as duas damas, entre as quais se acha.)Um sonho... às vezes cuido conter cá dentro mais do que a minha vida e o meu século... Sonhos... sonhos! A realidade é que vós sois as duas mais lindas damas da cristandade, e que o amor é a alma do universo!

D. FRANCISCA — O amor e a espada, senhor brigão!

CAMÕES, alegremente. — Por que me não dais logo as alcunhas que me hão de ter posto os poltrões do Rocio? Vingam-se com isso, que é a desforra da poltroneria... Não sabeis? Naturalmente não; vós gastais as horas nos lavores e recreios do paço; mora aqui a doce paz do espírito.

D. CATARINA, com intenção. — Nem sempre.

D. FRANCISCA — Isto é convosco; e eu, que posso ser indiscreta, não me detenho a ouvir mais nada. (Dá alguns passos para ofundo.)

D. CATARINA — Vinde cá...

D. FRANCISCA — Vou-me... vou a consolar o nosso Caminha, que há de estar um pouco enfadado... Ouviu ele o que El-rei vos disse?

CAMÕES — Ouviu; que tem?

D. FRANCISCA — Não ouviria de boa sombra.

CAMÕES — Pode ser que não... dizem-me que não. (A D. Catarina.) Pareceis inquieta...

D. CATARINA, a D. Francisca. — Não, não vades; ficai um instante.

CAMÕES, a D. Francisca. — Irei eu.

D. FRANCISCA — Não, senhor; irei eu só. (Sai pelo fundo.)




CENA VIII

CAMÕES, D. CATARINA DE ATAÍDE

CAMÕES, com uma reverência. — Irei eu. Adeus, minha senhora D. Catarina de Ataíde! (D. Catarina dá um passo para ele.)Mantenha-vos Deus na sua santa guarda.

D. CATARINA — Não... vinde cá... (Camões detém-se.) Enfadei-vos? Vinde um pouco mais perto. (Camões aproxima-se.) Que vos fizeu? Duvidais de mim?

CAMÕES — Cuido que me quereis ausente.

D. CATARINA — Luís! (Inquieta.) Vede esta sala, estas paredes... falarmos a sós... Duvidais de mim?

CAMÕES — Não duvido de vós; não duvido da vossa ternura: da vossa firmeza é que eu duvido.

D. CATARINA — Receais que fraqueie algum dia?

CAMÕES — Receio; chorareis muitas lágrimas, muitas e amargas... mas, cuido que fraqueareis.

D. CATARINA — Luís! juro-vos...

CAMÕES — Perdoai, se vos ofende esta palavra. Ela é sincera: subiu-me do coração à boca. Não posso guardar a verdade; perder-me-ei algum dia por dizê-la sem rebuço. Assim me fez a natureza; assim irei à sepultura.

D. CATARINA — Não, não fraquearei, juro-vos. Amo-vos muito, bem o sabeis. Posso chegar a afrontar tudo, até a cólera de meu pai. Vede lá, estamos a sós; se nos vira alguém... (Camões dá um passo para sair.) Não, vinde cá. Mas, se nos vira alguém, defronte um do outro, no meio de uma sala deserta, que pensaria? Não sei que pensaria; tinha medo há pouco, já não tenho medo... amor sim... O que eu tenho é amor, meu Luís.

CAMÕES — Minha boa Catarina.

D. CATARINA — Não me chameis boa, que eu não sei se o sou... Nem boa, nem má.

CAMÕES — Divina sois .

D. CATARINA — Não me deis nomes que são sacrilégios.

CAMÕES — Que outro vos cabe?

D. CATARINA — Nenhum.

CAMÕES — Nenhum? — Simplesmente a minha doce e formosa senhora D. Catarina de Ataíde, uma ninfa do paço, que se lembrou de amar um triste escudeiro, sem se lembrar que seu pai a guarda para algum solar opulento, algum grande cargo de camareira-mor. Tudo isso havereis, enquanto que o coitado de Camões irá morrer em África ou Ásia...

D. CATARINA — Teimoso sois! Sempre essas idéias de África...

CAMÕES — Ou Ásia. Que tem isso? Digo-vos que, às vezes, a dormir, imagino lá estar, longe dos galanteios da corte, armado em guerra, diante do gentio. Imaginai agora...

D. CATARINA — Não imagino nada; vós sois meu, tão só meu, tão-somente meu. Que me importa o gentio, ou o Turco, ou que quer que é, que não sei, nem quero? Tinha que ver, se me deixáveis, para ir às vossas Áfricas... E os meus sonetos? Quem mos havia de fazer, meu rico poeta?

CAMÕES — Não faltará quem vo-los faça, e da maior perfeição.

D. CATARINA — Pode ser; mas eu quero-os ruins, como os vossos... como aquele da Circe, o meu retrato, dissestes vós.
CAMÕES, recitando.

Um mover de olhos, brando e piedoso.
Sem ver de que; um riso brando e honesto,
Quase forçado um doce e humilde gesto
De qualquer alegria duvidoso...

D. CATARINA — Não acabeis, que me obrigareis a fugir de vexada.

CAMÕES — De vexada! Quando é que a rosa se vexou, por que o sol a beijou de longe?

D. CATARINA — Bem respondido, meu claro sol.

CAMÕES — Deixai-me repetir que sois divina. Natércia minha, pode a sorte separar-nos, ou a morte de um ou de outro; mas o amor subsiste, longe ou perto, na morte ou na vida, no mais baixo estado, ou no cimo das grandezas humanas, não é assim? Deixai-me crê-lo, ao menos; deixai-me crer que há um vínculo secreto e forte, que nem os homens, nem a própria natureza poderia já destruir. Deixai-me crer... Não me ouvis?

D. CATARINA — Ouço, ouço.

CAMÕES — Crer que a última palavra de vossos lábios será o meu nome. Será? Tenha eu esta fé, e não se me dará da adversidade; sentir-me-ei afortunado e grande. Grande, ouvis bem? Maior que todos os demais homens.

D. CATARINA — Acabai!

CAMÕES — Que mais?

D. CATARINA — Não sei; mas é tão doce ouvir-vos! Acabai, acabai, meu poeta! Ou antes, não, não acabeis; falai sempre, deixai-me ficar perpetuamente a escutar-vos.

CAMÕES — Ai de nós! A perpetuidade é um simples instante, um instante em que nos deixam sós nesta sala! (D. Catarina afasta-se rapidamente.) Olhai; só a idéia do perigo vos arredou de mim.

D. CATARINA — Na verdade, se nos vissem... Se alguém aí, por esses reposteiros... Adeus...

CAMÕES — Medrosa, eterna medrosa!

D. CATARINA — Pode ser que sim; mas não está isso mesmo no meu retrato?

Um encolhido ousar, uma brandura,
Um medo sem ter culpa; um ar sereno,
Um longo e obediente sofrimento...

CAMÕES -

Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.

D. CATARINA, indo a ele. — Pois então? A vossa Circe manda-vos que não duvideis dela, que lhe perdoeis os medos, tão próprios do lugar e da condição; manda-vos crer e amar. Se ela às vezes foge, é porque a espreitam; se vos não responde, é porque outros ouvidos poderiam escutá-la. Entendeis? É o que vos manda dizer a vossa Circe, meu poeta... e agora... (Estende-lhe a mão.) Adeus!

CAMÕES — Ides-vos?

D. CATARINA — A rainha espera-me. Audazes fomos, Luís. Não desafiemos o paço... que esses reposteiros...

CAMÕES — Deixa-me ir ver!

D. CATARINA, detendo-o. — Não, não. Separemo-nos.

CAMÕES — Adeus! (D. Catarina dirige-se para a porta da esquerda; Camões olha para a porta da direita.)

D. CATARINA — Andai, andai!

CAMÕES — Um instante ainda!

D. CATARINA — Imprudente! Por quem sois, ide-vos meu Luís!

CAMÕES — A rainha espera-vos?

D. CATARINA — Espera.

CAMÕES — Tão raro é ver-vos!

D. CATARINA — Não afrontemos o céu... podem dar conosco...

CAMÕES — Que venham! Tomara eu que nos vissem! Bradaria a todos o meu amor, e a que o faria respeitar!

D. CATARINA, aflita pegando-lhe na mão. — Reparai, meu Luís, reparai onde estais, quem eu sou, o que são estas paredes... domaiesse gênio arrebatado, peço-vo-lo eu. Ide-vos em boa paz, sim?

CAMÕES — Viva a minha corça gentil, a minha tímida corça! Ora vos juro que me vou, e de corrida. Adeus!

D. CATARINA — Adeus!

CAMÕES, com a mão dela presa. — Adeus

D. CATARINA — Ide... deixai-me ir!

CAMÕES — Hoje há luar; se virdes um embuçado diante das vossas janelas, quedado a olhar para cima, desconfiai que sou eu; e então, já não é o sol a beijar de longe uma rosa, é o goivo que pede calor a uma estrela.

D. CATARINA — Cautela, não vos reconheçam.

CAMÕES — Cautela haverei; mas, que me reconheçam, que tem isso? embargarei a palavra ao importuno.

D. CATARINA — Sossegai. Adeus!

CAMÕES — Adeus!

(D. Catarina dirige-se para a porta da esquerda, e pára diante dela, à espera que Camões saia. Camões corteja-a com um gesto gracioso, e dirige-se para o fundo. — Levanta-se o reposteiro da porta da direita, e aparece Caminha. — D. Catarina dá um pequeno grito, e sai precipitadamente. — Camões detém-se. Os dois homens olham-se por um instante.)




CENA IX

CAMÕES, CAMINHA

CAMINHA, entrando. — Discreteáveis com alguém, ao que parece...

CAMÕES — É verdade.

CAMINHA — Ouvi de longe a vossa fala, e reconheci-a. Vi logo que era o nosso poeta, de quem tratava há pouco com alguns fidalgos.Sois o bem-amado, entre os últimos de Coimbra. — Com que, discreteáveis... Com alguma dama?

CAMÕES — Com uma dama.

CAMINHA — Certamente formosa, que não as há de outra casta nestes reais paços. Sua Alteza cuido que continuará, e ainda em bem, algumas boas tradições de El-rei seu pai. Damas formosas, e, quanto possível, letradas. São estes, dizem, os bons costumes italianos.É vós, senhor Camões, por que não ides à Itália?

CAMÕES — Irei à Itália, mas passando por África.

CAMINHA — Ah! Ah! para lá deixar primeiro um braço, uma perna, ou um olho... Não, poupai os olhos, que são o feitiço dessas damas da corte; poupai também a mão, com que nos haveis de escrever tão lindos versos; isto vos digo que poupai...

CAMÕES — Uma palavra, senhor Pero de Andrade. Uma só palavra, mas sincera.

CAMINHA — Dizei.

CAMÕES — Dissimulais algum outro pensamento. Revelai-mo... intimo-vos que mo reveleis.

CAMINHA — Ide à Itália, senhor Camões, ide à Itália.

CAMÕES — Não resistireis muito tempo ao que vos mando.

CAMINHA — Ou à África, se o quereis... ou à Babilônia... À Babilônia melhor; levai a harpa do desterro, mas em vez de a pendurar de um salgueiro, como na Escritura, cantar-nos-eis a linda copla da galinha, ou comporeis umas outras voltas ao mote, que já vos serviu tão bem:

Perdigão perdeu a pena,

Não há mal que lhe não venha.

Ide à Babilônia, senhor Perdigão!

CAMÕES, pegando-lhe no pulso. — Por vida minha, calai-vos!

CAMINHA — Vede o lugar em que estais.

CAMÕES, solta-o. — Vejo; vejo também quem sois; só não vejo o que odiais em mim.

CAMINHA — Nada.

CAMÕES — Nada?

CAMINHA — Coisa nenhuma.

CAMÕES — Mentis pela gorja, senhor camareiro.

CAMINHA — Minto? Vede lá; ia-me deixando arrebatar, ia conspurcando com alguma vilania esta sala de El-rei. Retraí-me a tempo. Menti, dizeis vós? — Pode ser que sim, porque eu creio que efetivamente vos odeio, mas só há um instante, depois que me pagastes com uma injúria o aviso que vos dei.

CAMÕES — Um aviso?

CAMINHA — Nada menos. Queria eu dizer-vos que as paredes do paço nem são mudas, nem sempre são caladas.

CAMÕES — Não serão; mas eu as farei caladas.

CAMINHA — Pode ser. Essa dama era...?

CAMÕES — Não reparei bem.

CAMINHA — Fizestes mal; é prudência reparar nas damas; prudência e cortesia. Com que, ides à África? Lá estão os nossos emMazagão, cometendo façanhas contra essa canalha de Mafamede; imitai-os. Vede, não deixeis lá esse braço, com que nos haveis de calar as paredes os reposteiros. É conselho de amigo.

CAMÕES — Por que sereis meu amigo?

CAMINHA — Não digo que o seja; o conselho é que o é.

CAMÕES — Credes, então...?

CAMINHA — Que poupareis uma grande dor e um maior escândalo.

CAMÕES — Percebo-vos. Imaginais que amo alguma dama? Suponhamos que sim. Qual é o meu delito? Em que ordenação, em que rescrito, em que bula, em que escritura, divina ou humana, foi já dado como delito amarem-se duas criaturas?

CAMINHA — Deixai a corte.

CAMÕES — Digo-vos que não.

CAMINHA — Oxalá que não!

CAMÕES, à parte. — Este homem... que há neste homem? Lealdade ou perfídia? (Alto.) Adeus, senhor Caminha. (Pára no meio da cena). Por que não tratamos de versos?... Fora muito melhor...

CAMINHA. — Adeus, senhor Camões. (Camões sai.)




CENA X

CAMINHA, logo D. CATARINA DE ATAÍDE


CAMINHA – Ide, ide, magro poeta de camarins... (Desce ao proscênio.) Era ela, de certo, era ela que aí estava com ele, no meio do paço, esquecidos de El-rei e de todos... Oh temeridade do amor! Do amor? ele... ele... Mas seria ela deveras?... Que outra podia ser?

D. CATARINA, espreita e entra. — Senhor... senhor...

CAMINHA — Ela!

D. CATARINA — Ouvi tudo... tudo o que lhe dissestes... e peço-vos que não nos façais mal. Sois amigo de meu pai, ele é vosso amigo; não lhe digais nada. Fui imprudente, fui, mas que quereis? (Vendo que Caminha não diz nada.) Então? falai... poderei contar convosco?

CAMINHA — Comigo? (D. Catarina inquieta, aflita, pega-lhe na mão; ele retira-lha com aspereza.) Contar comigo! para que, minha senhora D. Catarina? Amais um mancebo digno, por que vós o amais... muito, não?

D. CATARINA — Muito.

CAMINHA — Muito, dizeis... E éreis vós que estáveis aqui, com ele, nesta sala solitária, juntos um do outro, a falarem naturalmente do céu e da terra... ou só do céu, que é a terra dos namorados. Que dizeis?...

D. CATARINA, baixando os olhos. — Senhor...

CAMINHA — Galanteios, galanteios, de que se há de falar lá fora... (Gesto de D. Catarina.) Ah! cuidais que estes amores nascem e morrem no paço? — Não; passam além; descem à rua, são o mantimento dos ociosos e ainda dos que trabalham, porque, ao serão, principalmente nas noites de inverno, em que se há de ocupar a gente, depois de fazer as suas orações? Com que, éreis vós? Poisdigo-vos que o não sabia; suspeitava, porque não podia talvez ser outra... E confessais que lhe quereis muito. Muito?

D. CATARINA — Pode ser fraqueza; mas crime...onde está o crime?

CAMINHA — O crime está em desonrar as cãs de um nobre homem, arrastando-lhe o nome por vielas e praças; o crime está em escandalizar a corte, com essas ternuras, impróprias do alto cargo que exerceis, do vosso sexo e estado... esse é o crime. E parece-vos pequeno?

D. CATARINA — Bem; desculpai-me, não direis nada...

CAMINHA — Não sei.

D. CATARINA — Peço-vos... de joelhos até... (Faz um gesto para ajoelhar-se, ele impede-lho.)

CAMINHA — Perderíeis o tempo; eu sou amigo de vosso pai.

D. CATARINA — Contar-lhe-eis tudo?

CAMINHA — Talvez.

D. CATARINA — Bem mo diziam sempre; sois inimigo de Camões.

CAMINHA — E sou.

D. CATARINA — Que vos fez ele?

CAMINHA — Que me fez? (Pausa.) D. Catarina de Ataíde, quereis saber o que me fez o vosso Camões? Não é só a sua soberba que me afronta; fosse só isso, e que me importava um frouxo cerzidor de palavras, sem arte nem conceito?

D. CATARINA — Acabai.

CAMINHA — Também não é porque ele vos ama, que eu o odeio; mas vós, senhora D. Catarina de Ataíde, vós o amais... eis o crime de Camões. Entendeis?

D. Catarina, depois de um instante de assombro. — Não quero entender.

CAMINHA — Sim, que também eu vos quero, ouvis? — E quero-vos muito... mais do que ele, e melhor do que ele; porque o meu amor tem o impulso do ódio, nutre-se do silêncio, o desdém o avigora, e não faço alarde nem escândalo; é um amor...

D. CATARINA — Calai-vos! Pela Virgem, calai-vos!

CAMINHA — Que me cale? Obedecerei. (Faz uma reverência.) Mandais alguma outra coisa?

D. CATARINA — Não, ficai, ficai. Jurai-me que não direis nada...

CAMINHA — Depois da confissão que vos fiz, esse pedido chega a ser mofa. Que não diga nada? Direi tudo, revelarei tudo a vosso pai. Não sei se a ação é má ou boa; sei que vos amo, e que detesto esse rufião, a quem vadios deram foros de letrado.

D. CATARINA — Senhor! É demais!

CAMINHA — Defendei-o, não é assim?

D. CATARINA — Odiai-o, se vos apraz; insulta-o, é que não é de cavaleiro...

CAMINHA — Que tem? O amor desprezado sangra e fere.

D. CATARINA — Deixai que lhe chame um amor vilão.

CAMINHA — Sois vós agora que me injuriais. Adeus, senhora D. Catarina de Ataíde! (Dirige-se para o fundo.)

D. CATARINA, tomando-lhe o passo. — Não! Agora não vos peço... intimo-vos que vos caleis.

CAMINHA — Que recompensa me dais?

D. CATARINA — A vossa consciência.

CAMINHA — Deixai em paz os que dormem. Quereis que vos prometa alguma coisa? Uma só coisa prometo; não contar a vosso pai o que se passou. Mas, se por denúncia ou desconfiança, for interrogado por ele, então lhe direi tudo. E duas vezes farei bem: — não faltarei à verdade, que é dever de cavaleiro; e depois... chorareis lágrimas de sangue; e eu prefiro ver-vos chorar a ver-vos sorrir. A vossa angústia será a minha consolação. Onde falecerdes de pura saudade, ai me glorificarei eu. Chamai-me agora perverso, se o quereis; eu respondo que vos amo, e que não tenho outra virtude. (Vai a sair, encontra-se com D. Francisca de Aragão; corteja-a e sai.)




CENA XI

D. CATARINA DE ATAÍDE, D. FRANCISCA DE ARAGÃO


D. FRANCISCA — Vai afrontado o nosso poeta. Que terá ele? (Reparando em D. Catarina. ) Que tendes vós? Que foi?

D. CATARINA — Tudo sabe.

D. FRANCISCA — Quem?

D. CATARINA — Esse homem. Achou-nos nesta sala; eu tive medo; disse-lhe tudo.

D. FRANCISCA — Imprudente!

D. CATARINA — Duas vezes imprudente; deixei-me estar ao lado do meu Luís, a ouvir-lhe as palavras tão nobres, tão apaixonadas... eo tempo corria... e podiam espreitar-nos... Credes que o Caminha diga alguma coisa a meu pai?

D. FRANCISCA — Talvez não.

D. CATARINA — Quem sabe? Ele ama-me.

D. FRANCISCA — O Caminha?

D. CATARINA — Disse-mo agora. Que admira? Acha-me formosa, como os outros. Triste dom é esse. Sou formosa para não ser feliz, para ser amada às ocultas, odiada às escancaras, e, talvez... Se meu pai vier a saber... que fará ele, amiga minha?

D. FRANCISCA — O senhor D. Antônio é tão severo!

D. CATARINA — Irá ter com El-rei, pedir-lhe-á que o castigue, que o encarcere, não? E por minha causa... Não; primeiro irei eu...(Dirige-se para a porta da direita.)

D. FRANCISCA — Onde ides?

D. CATARINA — Vou falar a El-rei... Ou, não... (Encaminha-se para a porta da esquerda.) Vou ter com a rainha; contar-lhe-ei tudo; ela me amparará. Credes que não?

D. FRANCISCA — Creio que sim.

D. CATARINA — Irei, ajoelhar-me-ei a seus pés. Ela é rainha, mas é também mulher... e ama-me. (Sai pela esquerda.)




CENA XII

D. FRANCISCA DE ARAGÃO, D. ANTÔNIO DE LIMA, depois, D. MANUEL DE PORTUGAL

D. FRANCISCA, depois de um momento de reflexão. — Talvez chegue cedo demais. (Dá um passo para a porta da esquerda.) Não; melhor é que lhe fale... mas, se se aventa a notícia? Meu Deus, não sei... não sei... Ouço passos... Entra D. Antônio de Lima. Ah!

D. ANTÔNIO — Que foi?

D. FRANCISCA — Nada, nada... não sabia quem era. Sois vós... (Risonha.) Chegaram galeões da Ásia; boas notícias, dizem...

D. ANTÔNIO — Eu não ouvi dizer nada. (Querendo retirar-se.) Permitis?...

D. FRANCISCA — Jesus! Que tendes? Que ar é esse? (Vendo entrar D. Manuel de Portugal.) Vinde cá, senhor D. Manuel de Portugal, vinde saber o que tem este meu bom e velho amigo, que me não quer... (Segurando na mão de D. Antônio ). Então, eu já não sou a vossa frescura de maio?

D. ANTÔNIO, sorrindo a custo. — Sois, sois. Manhosamente sutil, ou sutilmente manhosa, à escolha; eu é que sou uma triste secura de dezembro, que me vou e vos deixo. Permitis, não? (Corteja-a e dirige-se para a porta.)

D. MANUEL, interpondo-se. — Deixai que vos levante o reposteiro. (Levanta o reposteiro.) Ides ter com Sua Alteza, suponho?

D. ANTÔNIO — Vou.

D. MANUEL — Ides levar-lhe notícias da Índia?

D. ANTÔNIO — Sabeis que não é o meu cargo...

D. MANUEL — Sei, sei; mas dizem que... Senhor D. Antônio, acho-vos o rosto anuviado, alguma coisa vos penaliza ou turva. Sabeis que sou vosso amigo; perdoai se vos interrogo. Que foi? Que há?

D. ANTÔNIO, gravemente. — Senhor D. Manuel, tendes vinte e sete anos, eu conto sessenta; deixai-me passar. (D. Manuel inclina-se, levantando o reposteiro. D. Antônio desaparece.)




CENA XIII

D. MANUEL DE PORTUGAL, D. FRANCISCA DE ARAGÃO

D. MANUEL — Vai dizer tudo a El-rei.

D. FRANCISCA — Credes?

D. MANUEL — Camões contou-me o encontro que tivera com o Caminha aqui; eu ia falar ao senhor D. Antônio; achei-o agora mesmo, ao pé de uma janela, com o dissimulado Caminha, que lhe dizia: "Não vos nego, senhor D. Antônio, que os achei naquela sala, a sós e que vossa filha fugiu desde que eu lá entrei."

D. FRANCISCA — Ouvistes isso?

D. MANUEL — D. Antônio ficou severo e triste. “Querem escândalo?...” foram as suas palavras. E não disse outras; apertou a mão ao Caminha, e seguiu para cá... Penso que foi pedir alguma coisa a El-rei. Talvez o desterro.

D. FRANCISCA — O desterro?

D. MANUEL — Talvez. Camões há de voltar agora aqui; disse-me que viria falar ao senhor D. Antônio. Para quê? Que outros lhe falem, sim; mas o meu Luís que não sabe conter-se... D. Catarina?

D. FRANCISCA — Foi lançar-se aos pés da rainha, a pedir-lhe proteção.

D. MANUEL — Outra imprudência. Foi há muito?

D. FRANCISCA — Pouco há.

D. MANUEL — Ide ter com ela, se é tempo, dizei-lhe que não, que não convém falar nada. (D. Francisca vai a sair, e pára ) Recusais?

D. FRANCISCA — Vou, vou. Pensava comigo uma coisa. (D. Manuel vai a ela.) Pensava que é preciso querer muito aqueles dois para nos esquecermos assim de nós.

D. MANUEL — É verdade. E não há mais nobre motivo da nossa mútua indiferença. Indiferença, não; não o é, nem o podia ser nunca. No meio de toda essa angústia que nos cerca, poderia eu esquecer a minha doce Aragão? Poderíeis vós esquecer-me. Ide agora, nós que somos felizes, temos o dever de consolar os desgraçados. (D. Francisca sai pela esquerda.)




CENA XIV

D. MANUEL DE PORTUGAL, logo D. ANTÔNIO DE LIMA

D. MANUEL — Se perco o confidente dos meus amores, da minha mocidade, o meu companheiro de longas horas... Não é impossível. —El-rei concederá o que lhe pedir D. Antônio. A culpa, — força é confessá-lo, — a culpa é dele, do meu Camões, do meu impetuoso poeta; um coração sem freio... (Abre-se o reposteiro, aparece D. Antônio.) D. Antônio!

D. ANTÔNIO, da porta, jubiloso. — Interrogastes-me há pouco; agora hei tempo de vos responder.

D. MANUEL — Talvez não seja preciso.

D. ANTÔNIO, adianta-se — Adivinhais então?

D. MANUEL — Pode ser que sim.

D. ANTÔNIO — Creio que adivinhais.

D. MANUEL — Sua Alteza concedeu-vos o desterro de Camões.

D. ANTÔNIO — Esse é o nome da pena: a realidade é que Sua Alteza restituiu a honra a um vassalo, e a paz a um ancião.

D. MANUEL — Senhor D. Antônio...

D. ANTÔNIO — Nem mais uma palavra, senhor D. Manuel de Portugal, nem mais uma palavra. — Mancebo sois; é natural que vos ponhais do lado do amor; eu sou velho, e a velhice ama o respeito. Até à vista, senhor D. Manuel, e não turveis o meu contentamento. (Dá um passo para sair.)

D. MANUEL — Se matais vossa filha?

D. ANTÔNIO — Não a matarei. Amores fáceis de curar são esses que aí brotam no meio de galanteios e versos. Versos curam tudo. Só não curam a honra os versos; mas para a honra dá Deus um rei austero, em pai inflexível... Até à vista, senhor D. Manuel. (Sai pela esquerda.)




CENA XV

D. MANUEL DE PORTUGAL, logo CAMÕES

D. MANUEL — Perdido... está tudo perdido.(Camões entra pelo fundo.) Meu pobre Luís! Se soubesses...

CAMÕES — Que há?

D. MANUEL — El-rei... El-rei atendeu às súplicas do senhor D. Antônio. Está tudo perdido.

CAMÕES — E que pena me cabe?

D. MANUEL — Desterra-vos da corte.

CAMÕES — Desterrado! Mas eu vou ter com Sua Alteza, eu direi...

D. MANUEL, aquietando-o. — Não direis nada; não tendes mais que cumprir a real ordem; deixai que os vossos amigos façam alguma coisa; talvez logrem abrandar o rigor da pena. Vós não fareis mais do que agravá-la.

CAMÕES — Desterrado! E para onde?

D. MANUEL — Não sei. Desterrado da corte é o que é certo. Vede... não há mais demorar no paço. Saiamos.

CAMÕES — Aí me vou eu, pois, caminho do desterro, e não sei se da miséria! Venceu então o Caminha? Talvez os versos dele fiquem assim melhores. Se nos vai dar uma nova Eneida, o Caminha? Pode ser, tudo pode ser... Desterrado da corte! Cá me ficam os melhores dias, e as mais fundas saudades. Crede, senhor D. Manuel, podeis crer que as mais fundas saudades cá me ficam.

D. MANUEL — Tornareis, tornareis...

CAMÕES — E ela? Já o saberá ela?

D. MANUEL — Cuido que o senhor D. Antônio foi dizer-lho em pessoa. Deus ! Aí vem eles.





CENA XVI

OS MESMOS, D. ANTÔNIO DE LIMA, D. CATARINA DE ATAÍDE

D. Antônio aparece à porta da esquerda, trazendo D. Catarina pela mão. — D. Catarina vem profundamente abatida.

D. CATARINA, à parte, vendo Camões. — Ele! Dai-me força, meu Deus! (D. Antônio corteja os dois, e segue na direção do fundo. Camões dá um passo para falar-lhe, mas D. Manuel contém-no. D. Catarina, prestes a sair, volve a cabeça para trás.)





CENA XVII

D. MANUEL DE PORTUGAL, CAMÕES

CAMÕES — Ela aí vai... talvez para sempre... Credes que para sempre?

D. MANUEL — Não. Saiamos!

CAMÕES — Vamos lá; deixemos estas salas que tão funestas me foram. (Indo ao fundo e olhando para dentro.) Ela aí vai, a minha estrela, aí vai a resvalar no abismo, de onde não sei se a levantarei mais... Nem eu... (Voltando-se para D. Manuel.) Nem vós, meu amigo, nem vós que me quereis tanto, ninguém.

D. MANUEL — Desanimais depressa, Luís. Por que ninguém?

CAMÕES — Não saberia dizer-vos; mas sinto-o aqui no coração. Essa clara luz, essa doce madrugada da minha vida, apagou-se agora mesmo, e de uma vez.

D. MANUEL — Confiai em mim, nos meus amigos, nos vossos amigos. Irei ter com eles; induzi-los-ei a....

CAMÕES — A quê? A mortificarem um camareiro-mor, a fim de servir um triste escudeiro que já estará a caminho de África?

D. MANUEL — Ides à África?

CAMÕES — Pode ser; sinto umas tonteiras africanas. Pois que me fecham a porta dos amores, abrirei eu mesmo as da guerra. Irei lá pelejar, ou não sei se morrer... África, disse eu? Pode ser que Ásia também, ou Ásia só; o que me der na imaginação.

D. MANUEL — Saiamos.

CAMÕES — E agora, adeus, infiéis paredes; sede ao menos com passivas; guardai-ma, guardai-ma bem, a minha formosa D. Catarina! (A D. Manuel.) Credes que tenho vontade de chorar?

D. MANUEL — Saiamos, Luís!

CAMÕES — Eu não choro, não; não choro... não quero... (Forcejando por ser alegre.) Vedes? até rio! Vou-me para bem longe. Considerando bem, Ásia é melhor; lá rematou a audácia lusitana o seu edifício, lá irei escutar o rumor dos passos do nosso Vasco. E este sonho, esta quimera, esta coisa que me flameja cá dentro, quem sabe se... Um grande sonho, senhor D. Manuel... Vede lá, ao longe, na imensidade desses mares, nunca dantes navegados, uma figura rútila, que se debruça dos balcões da aurora, coroada de palmas indianas? É a nossa glória, é a nossa glória que alonga os olhos, como a pedir o seu esposo ocidental. E nenhum lhe vai dar o ósculo que a fecunde; nenhum filho desta terra, nenhum que empunhe a tuba da imortalidade, para dizê-la aos quatro ventos do céu... Nenhum... (Vai amortecendo a voz.) Nenhum... (Pausa, fita D. Manuel, como se acordasse, e dá de ombros.) Uma grande quimera, senhor D. Manuel. Vamos ao nosso desterro.

FIM

Não consultes médico - Teatro de Machado de Assis

Publicado originalmente em Páginas Recolhidas , Joaquim Maria Machado de Assis.
Rio de Janeiro: Editora Garnier, 1899


PERSONAGENS
D. Leocádia
D. Carlota
D. Adelaide
Cavalcante
Magalhães



Um gabinete em casa de Magalhães, na Tijuca

CENA I

Magalhães, D. Adelaide

(Magalhães lê um livro. D. Adelaide folheia um livro de gravuras)

MAGALHÃES — Esta gente não terá vindo?

D. ADELAIDE — Parece que não. Já saíram há um bom pedaço; felizmente o dia está fresco. Titia estava tão contente ao almoço! E ontem? Você viu que risadas que ela dava, ao jantar, ouvindo o Dr. Cavalcante? E o Cavalcante sério. Meu Deus, que homem triste!que cara de defunto!

MAGALHÃES — Coitado do Cavalcante! Mas que quererá ela comigo? Falou-me em um obséquio.

D. ADELAIDE — Sei o que é.

MAGALHÃES — Que é?

D. ADELAIDE — Por ora é segredo. Titia quer que levemos Carlota conosco.

MAGALHÃES — Para a Grécia?

D. ADELAIDE — Sim, para a Grécia.

MAGALHÃES — Talvez ela pense que a Grécia é em Paris. Eu aceitei a legação de Atenas porque não me dava bem em Guatemala e não há outra vaga na América. Nem é só por isso; você tem vontade de ir acabar a lua de mel na Europa... Mas então Carlota vai ficar conosco?

D. ADELAIDE — É só algum tempo. Carlota gostava muito de um tal Rodrigues, capitão de engenharia, que casou com uma viúva espanhola. Sofreu muito, e ainda agora anda meia triste; titia diz que há de curá-la.

MAGALHÃES (rindo) — É a mania dela.

D. ADELAIDE (rindo) — Só cura moléstias morais.

MAGALHÃES — A verdade é que nos curou; mas, por muito que lhe paguemos em gratidão, fala-nos sempre da nossa antiga moléstia. "Como vão os meus doentezinhos? Não é verdade que estão curados?"

D. ADELAIDE — Pois falemos-lhe nós da cura, para lhe dar gosto. Agora quer curar a filha.

MAGALHÃES — Do mesmo modo?

D. ADELAIDE — Por ora não. Quer mandá-la à Grécia para que ela esqueça o capitão de engenharia.

MAGALHÃES — Mas, em qualquer parte se esquece um capitão de engenharia.

D. ADELAIDE — Titia pensa que a visita das ruínas e dos costumes diferentes cura mais depressa. Carlota está com dezoito para dezenove anos; titia não a quer casar antes dos vinte. Desconfio que já traz um noivo em mente, um moço que não é feio, mas tem o olhar espantado.

MAGALHÃES — É um desarranjo para nós; mas, enfim, pode ser que lhe achemos lá na Grécia algum descendente de Alcibíades que a preserve do olhar espantado.

D. ADELAIDE — Ouço passos. Há de ser titia...

MAGALHÃES — Justamente! Continuemos a estudar a Grécia. (Sentam-se outra vez, Magalhães lendo, D. Adelaide folheando o livro de vistas).




CENA II

Os mesmos e D. Leocádia

D. LEOCÁDIA (para à porta, desce pé ante pé, e mete a cabeça entre os dois) — Como vão os meus doentezinhos? Não é verdade que estão curados?

MAGALHÃES (á parte) — É isto todos os dias.

D. LEOCÁDIA — Agora estudam a Grécia; fazem muito bem. O país do casamento é que vocês não precisaram estudar.

D. ADELAIDE — A senhora foi a nossa geografia, foi quem nos deu as primeiras lições.

D. LEOCÁDIA — Não diga lições, diga remédios. Eu sou doutora, eu sou médica. Este (indicando Magalhães), quando voltou de Guatemala, tinha um ar esquisito; perguntei-lhe se queria ser deputado, disse-me que não; observei-lhe o nariz, e vi que era um triste nariz solitário...

MAGALHÃES — Já me disse isto cem vezes.

D. LEOCÁDIA (voltando-se para ele e continuando) — Esta (designando Adelaide) andava hipocondríaca. O médico da casa receitava pílulas, cápsulas, uma porção de tolices que ela não tomava porque eu não deixava; o médico devia ser eu.

D. ADELAIDE — Foi uma felicidade. Que é que se ganha em engolir pílulas?

D. LEOCÁDIA — Apanham-se moléstias.

D. ADELAIDE — Uma tarde, fitando eu os olhos de Magalhães...

D. LEOCÁDIA — Perdão, o nariz.

D. ADELAIDE — Vá lá. A senhora disse-me que ele tinha o nariz bonito, mas muito solitário. Não entendi; dois dias depois, perguntou-me se queria casar, eu não sei que disse, e acabei casando.

D. LEOCÁDIA — Não é verdade que estão curados?

MAGALHÃES — Perfeitamente.

D. LEOCÁDIA — A propósito, como irá o Dr. Cavalcante? Que esquisitão! Disse-me ontem que a coisa mais alegre do mundo era um cemitério. Perguntei-lhe se gostava aqui da Tijuca, respondeu-me que sim, e que o Rio de Janeiro era uma grande cidade. "É a segunda vez que a vejo, disse ele; eu sou do Norte. É uma grande cidade, José Bonifácio é um grande homem, a rua do Ouvidor um poema, o chafariz da Carioca um belo chafariz, o Corcovado, o gigante de pedra, Gonçalves Dias, os Timbiras, o Maranhão..." Embrulhava tudo a tal ponto que me fez rir. Ele é doido?

MAGALHÃES — Não.

D. LEOCÁDIA — A principio, cuidei que era. Mas o melhor foi quando se serviu o peru. Perguntei-lhe que tal achava o peru. Ficou pálido, deixou cair o garfo, fechou os olhos e não me respondeu. Eu ia chamar a atenção de vocês, quando ele abriu os olhos e disse com voz surda: "D. Leocádia, eu não conheço o Peru.." Eu, espantada, perguntei: "Pois não está comendo?..." "Não falo desta pobre ave; falo-lhe da república".

MAGALHÃES — Pois conhece a república.

D. LEOCÁDIA — Então mentiu.

MAGALHÃES — Não, porque nunca lá foi.

D. LEOCÁDIA (a D. Adelaide) — Mau! seu marido parece que também está virando o juízo. (A Magalhães) Conhece então o Peru, como vocês estão conhecendo a Grécia... pelos livros.

MAGALHÃES — Também não.

D. LEOCÁDIA — Pelos homens?.

MAGALHÃES — Não, senhora.

D. LEOCÁDIA — Então pelas mulheres?

MAGALHÃES — Nem pelas mulheres.

D. LEOCÁDIA — Por uma mulher?

MAGALHÃES — Por uma mocinha, filha do ministro do Peru em Guatemala. Já contei a historia à Adelaide. (D. Adelaide senta-se folheando o livro de gravuras).

D. LEOCÁDIA (senta-se) — Ouçamos a história. É curta?

MAGALHÃES — Quatro palavras. Cavalcante estava em comissão do nosso governo e freqüentava o corpo diplomático, onde era muito bem visto. Realmente, não se podia achar criatura mais dada, mais expansiva, mais estimável. Um dia começou a gostar da peruana. A peruana era bela e alta, com uns olhos admiráveis. Cavalcante, dentro de pouco, estava doido por ela, não pensava em mais nada, não falava de outra pessoa. Quando a via ficava estático. Se ela gostava dele, não sei; é certo que o animava e já se falava em casamento. Puro engano! Dolores voltou para o Peru, onde casou com um primo, segundo me escreveu o pai.

D. LEOCÁDIA — Ele ficou desconsolado, naturalmente.

MAGALHÃES — Ah! não me fale! Quis matar-se; pude impedir esse ato de desespero, e o desespero desfez-se em lagrimas. Caiudoente, uma febre que quase o levou. Pediu dispensa da comissão, e, como eu tinha obtido seis meses de licença, voltamos juntos. Não imagina o abatimento em que ficou, a tristeza profunda; chegou a ter as idéias baralhadas. Ainda agora, diz alguns disparates, mas emenda-se logo e ri de si mesmo.

D. LEOCÁDIA — Quer que lhe diga? Já ontem suspeitei que era negócio de amores; achei-lhe um riso amargo... Terá bom coração?

MAGALHÃES — Coração de ouro.

D. LEOCÁDIA — Espírito elevado?

MAGALHÃES — Sim, senhora.

D. LEOCÁDIA — Espírito elevado, coração de ouro, saudades... Está entendido.

MAGALHÃES — Entendido o que?

D. LEOCÁDIA — Vou curar o seu amigo Cavalcante. De que é que vocês se espantam?

D. ADELAIDE — De nada.

MAGALHÃES — De nada, mas...

D. LEOCÁDIA — Mas que?

MAGALHÃES — Parece-me...

D. LEOCÁDIA — Não parece nada; vocês são uns ingratos. Pois se confessam que eu curei o nariz de um e a hipocondria do outro, como é que põem em duvida que eu possa curar a maluquice do Cavalcante? Vou curá-lo. Ele virá hoje?

D. ADELAIDE — Não vem todos os dias; às vezes passa-se uma semana.

MAGALHÃES — Mora perto daqui; vou escrever-lhe que venha e, quando chegar, dir-lhe-ei que a senhora é o maior médico do século; cura o moral... Mas, minha tia, devo avisá-la de uma coisa: não lhe fale em casamento.

D. LEOCÁDIA — Oh! não!

MAGALHÃES — Fica furioso quando lhe falam em casamento; responde que só se há de casar com a morte... A senhora exponha-lhe...

D. LEOCÁDIA — Ora, meu sobrinho, vá ensinar o padre-nosso ao vigário. Eu sei o que ele precisa, mas quero estudar primeiro o doente e a doença. Já volto.

MAGALHÃES — Não lhe diga que eu é que lhe contei o caso da peruana...

D. LEOCÁDIA — Pois se eu mesma adivinhei que ele sofria do coração. (Sai; entra Carlota).




CENA III

Magalhães, D. Adelaide, D. Carlota

D. ADELAIDE — Bravo! está mais corada agora!

D. CARLOTA — Foi do passeio.

D. ADELAIDE — De que é que você gosta mais, da Tijuca ou da cidade?

D. CARLOTA — Eu por mim, ficava metida aqui na Tijuca.

MAGALHÃES — Não creio. Sem bailes? sem teatro lírico?

D. CARLOTA — Os bailes cansam, e não temos agora teatro lírico.

MAGALHÃES — Mas, em suma, aqui ou na cidade, o que é preciso é que você ria; esse ar tristonho faz-lhe a cara feia.

D. CARLOTA — Mas eu rio. Ainda agora não pude deixar de rir, vendo o Dr. Cavalcante.

MAGALHÃES — Por que?

D. CARLOTA — Ele passava ao longe, a cavalo, tão distraído que levava a cabeça caída entre as orelhas do animal; ri da posição, mas lembrei-me que podia cair e ferir-se, e estremeci toda.

MAGALHÃES — Mas não caiu?

D. CARLOTA — Não.

D. ADELAIDE — Titia viu também?

D. CARLOTA — Mamãe ia-me falando da Grécia, do céu da Grécia, dos monumentos da Grécia, do rei da Grécia; toda ela é Grécia, fala como se tivesse estado na Grécia.

D. ADELAIDE — Você quer ir conosco para lá?

D. CARLOTA — Mamãe não há de querer.

D. ADELAIDE — Talvez queira. (Mostrando-lhe as gravuras do livro). Olhe que bonitas vistas! Isto são ruínas. Aqui está uma cena de costumes. Olhe esta rapariga com um pote...

MAGALHÃES — (à janela) — Cavalcante aí vem.

D. CARLOTA — Não quero vê-lo.

D. ADELAIDE — Por que?

D. CARLOTA — Agora que passou o medo, posso rir-me lembrando a figura que ele fazia.

D. ADELAIDE — Eu também vou. (Saem as duas; Cavalcante aparece à porta. Magalhães deixa a janela).




CENA IV

Cavalcante, Magalhães

MAGALHÃES — Entra. Como passaste a noite?

CAVALCANTE — Bem. Dei um belo passeio; fui até ao Vaticano e vi o papa. (Magalhães olha espantado). Não te assustes, não estou doido. Eis o que foi: o meu cavalo ia para um lado e o meu espírito para outro. Eu pensava em fazer-me frade; então todas as minhas idéias vestiram-se de burel, e entrei a ver sobrepelizes e tochas; enfim, cheguei a Roma, apresentei-me à porta do Vaticano e pedi para ver o papa. No momento em que Sua Santidade apareceu, prosternei-me, depois estremeci; despertei e vi que o meu corpo seguira atrás do sonho, e que eu ia quase caindo.

MAGALHÃES — Foi então que a nossa prima Carlota deu contigo ao longe.

CAVALCANTE — Também eu a vi, e de vexado piquei o cavalo.

MAGALHÃES — Mas, então ainda não perdeste essa idéia de ser frade?

CAVALCANTE — Não.

MAGALHÃES — Que paixão romanesca!

CAVALCANTE — Não, Magalhães; reconheço agora o que vale o mundo com as suas perfídias e tempestades. Quero achar um abrigo contra elas; esse abrigo é o claustro. Não sairei nunca da minha cela e buscarei esquecer diante do altar...

MAGALHÃES — Olha que vais cair do cavalo!

CAVALCANTE — Não te rias, meu amigo!

MAGALHÃES — Não; quero só acordar-te. Realmente, estás ficando maluco. Não penses mais em semelhante moça. Há no mundo milhares e milhares de moças iguais à bela Dolores.

CAVALCANTE — Milhares e milhares? Mais uma razão para que eu me esconda em um convento. Mas é engano: há só uma, e basta.

MAGALHÃES — Bem; não há remédio senão entregar-te à minha tia.

CAVALCANTE — À tua tia?

MAGALHÃES — Minha tia crê que tu deves padecer de alguma doença moral — e adivinhou — e fala de curar-te. Não sei se sabes que ela vive na persuasão de que cura todas as enfermidades morais.

CAVALCANTE — Oh! eu sou incurável!

MAGALHÃES — Por isso mesmo deves sujeitar-te aos seus remédios. Se te não curar, dar-te-ia alguma distração, e é o que eu quero. (Abre a charuteira que está vazia). Olha, espera aqui, lê algum livro; eu vou buscar charutos. (Sai; Cavalcante pega num livro e senta-se).




CENA V

Cavalcante, D. Carlota, aparecendo ao fundo.

D. CARLOTA — Primo... (Vendo Cavalcante) Ah! perdão!

CAVALCANTE (erguendo-se) — Perdão de que!

D. CARLOTA — Cuidei que meu primo estava aqui; vim buscar um livro de gravuras de prima Adelaide; está aqui...

CAVALCANTE — A senhora viu-me passar a cavalo, há uma hora, numa posição incômoda e inexplicável.

D. CARLOTA — Perdão, mas...

CAVALCANTE — Quero dizer que eu levava na cabeça uma idéia séria, um negócio grave.

D. CARLOTA — Creio.

CAVALCANTE — Deus queira que nunca possa entender o que era! Basta crer. Foi a distração que me deu aquela postura inexplicável. Na minha família quase todos são distraídos. Um dos meus tios morreu na guerra do Paraguai por causa de uma distração; era capitão de engenharia.

D. CARLOTA (perturbada) — Oh! não me fale!

CAVALCANTE — Por que? Não pode tê-lo conhecido.

D. CARLOTA — Não, senhor; desculpe-me, sou um pouco tonta. Vou levar o livro à minha prima.

CAVALCANTE — Peço-lhe perdão, mas...

D. CARLOTA — Passe bem. (Vai à porta).

CAVALCANTE — Mas, eu desejava saber...

D. CARLOTA — Não, não, perdoe-me. (Sai.).




CENA VI

CAVALCANTE (só) — Não compreendo: não sei se a ofendi. Falei no tio João Pedro, que morreu no Paraguai, antes dela nascer...




CENA VII

Cavalcante, D. Leocádia

D. LEOCÁDIA (ao fundo, à parte) Está pensando (Desce). Bom dia, Dr. Cavalcante!

CAVALCANTE — Como passou, minha senhora?

D. LEOCÁDIA — Bem, obrigada. Então meu sobrinho deixou-o aqui só?

CAVALCANTE — Foi buscar charutos, já volta.

D. LEOCÁDIA — Os senhores são muito amigos.

CAVALCANTE Somos como dois irmãos.

D. LEOCÁDIA — Magalhães é um coração de ouro e o senhor parece-me outro. Acho-lhe só um defeito, doutor... Desculpe-me esta franqueza de velha; acho que o senhor fala trocado.

CAVALCANTE — Disse-lhe ontem algumas tolices, não?

D. LEOCÁDIA — Tolices, é muito; umas palavras sem sentido.

CAVALCANTE — Sem sentido, insensatas, vem a dar no mesmo.

D. LEOCÁDIA (pegando-lhe nas mãos) — Olhe bem para mim. (Pausa). Suspire. (Cavalcante suspira). O senhor está doente: não negue que está doente — moralmente, entenda-se; não negue! (Solta-lhe as mãos).

CAVALCANTE — Negar seria mentir. Sim, minha senhora, confesso que tive um grandíssimo desgosto

D. LEOCÁDIA — Jogo de praça?

CAVALCANTE — Não, senhora.

D. LEOCÁDIA — Ambições políticas mal-logradas?

CAVALCANTE — Não conheço política.

D. LEOCÁDIA — Algum livro mal recebido pela imprensa?

CAVALCANTE — Só escrevo cartas particulares.

D. LEOCÁDIA — Não atino. Diga francamente; eu sou médico de enfermidades morais e posso curá-lo. Ao médico diz-se tudo. Ande, fale, conte-me tudo, tudo, tudo. Não se trata de amores?...

CAVALCANTE (suspirando) — Trata-se justamente de amores.

D. LEOCÁDIA — Paixão grande?

CAVALCANTE — Oh! imensa!

D. LEOCÁDIA — Não quero saber o nome da pessoa, não é preciso. Naturalmente bonita?

CAVALCANTE — Como um anjo!

D. LEOCÁDIA. — O coração também era de anjo?

CAVALCANTE — Pode ser, mas de anjo mau.

D. LEOCÁDIA — Uma ingrata...

CAVALCANTE — Uma perversa!

D. LEOCÁDIA — Diabólica...

CAVALCANTE — Sem entranhas!

D. LEOCÁDIA — Vê que estou adivinhando. Console-se; uma criatura dessas não acha casamento.

CAVALCANTE — Já achou!

D. LEOCÁDIA — Já?

CAVALCANTE — Casou, minha senhora; teve a crueldade de casar com um primo.

D. LEOCÁDIA — Os primos quase que não nascem para outra coisa. Diga-me, não procurou esquecer o mal nas folias próprias de rapazes?

CAVALCANTE — Oh! não! Meu único prazer é pensar nela.

D. LEOCÁDIA — Desgraçado! Assim nunca há de sarar.

CAVALCANTE — Vou tratar de esquecê-la.

D. LEOCÁDIA — De que modo?

CAVALCANTE — De um modo velho, alguns dizem que já obsoleto e arcaico. Penso em fazer-me frade. Há de haver em algum recanto do mundo um claustro em que não penetre sol nem lua.

D. LEOCÁDIA — Que ilusão! Lá mesmo achará a sua namorada. Há de vê-la

nas paredes da cela, no teto, no chão, nas folhas do breviário. O silêncio far-se-á boca da moça, a solidão será o seu corpo.

CAVALCANTE — Então estou perdido. Onde acharei paz e esquecimento?

D. LEOCÁDIA — Pode ser frade sem ficar no convento. No seu caso o remédio naturalmente indicado é ir pregar... na China, por exemplo. Vá pregar aos infiéis na China. Paredes de convento são mais perigosas que olhos de chinesas. Ande, vá pregar na China. No fim de dez anos está curado. Volte, meta-se no convento e não achará lá o diabo.

CAVALCANTE — Está certa que na China...

D. LEOCÁDIA — Certíssima.

CAVALCANTE — O seu remédio é muito amargo! Por que é que me não manda antes para o Egito? Também é país de infiéis.

D. LEOCÁDIA — Não serve; é a terra daquela rainha... Como se chama?

CAVALCANTE — Cleópatra? Morreu há tantos séculos!

D. LEOCÁDIA — Meu marido disse que era uma desmiolada.

CAVALCANTE — Seu marido era, talvez, um erudito. Minha senhora, não se aprende amor nos livros velhos, mas nos olhos bonitos; por isso, estou certo de que ele adorava a V. Excia.

D. LEOCÁDIA — Ah! ah! Já o doente começa a adular o médico. Não, senhor, há de ir à China. Lá há mais livros velhos que olhos bonitos. Ou não tem confiança em mim?

CAVALCANTE — Oh! tenho; tenho. Mas ao doente é permitido fazer uma careta antes de engolir a pílula. Obedeço; vou para a China. Dez anos, não?

D. LEOCÁDIA (levanta-se) — Dez ou quinze, se quiser; mas antes dos quinze está curado.

CAVALCANTE — Vou.

D. LEOCÁDIA — Muito bem. A sua doença é tal que só com remédios fortes. Vá; dez anos passam depressa.

CAVALCANTE — Obrigado, minha senhora.

D. LEOCÁDIA — Até logo.

CAVALCANTE — Não, minha senhora, vou já.

D. LEOCÁDIA — Já para a China!

CAVALCANTE — Vou arranjar as malas e amanhã embarco para a Europa; vou a Roma, depois sigo imediatamente para a China... Até daqui a dez anos. (Estende-lhe a mão).

D. LEOCÁDIA — Fique ainda uns dias...

CAVALCANTE — Não posso.

D. LEOCÁDIA — Gosto de ver essa pressa; mas, enfim, pode esperar ainda uma semana.

CAVALCANTE — Não, não devo esperar. Quero ir às pílulas quanto antes; é preciso obedecer religiosamente ao médico.

D. LEOCÁDIA — Como eu gosto de ver um doente assim! O senhor tem fé no médico. O pior é que daqui a pouco, talvez, não se lembre dele.

CAVALCANTE — Oh! não! Hei de lembrar-me sempre, sempre!

D. LEOCÁDIA — No fim de dois anos escreva-me; informe-me sobre o seu estado e talvez eu o faça voltar. Mas, não minta, olhe lá; se já tiver esquecido a namorada, consentirei que volte.

CAVALCANTE — Obrigado. Vou ter com seu sobrinho e depois vou arranjar as malas.

D. LEOCÁDIA — Então não volta mais a esta casa?

CAVALCANTE — Virei daqui a pouco, uma visita de dez minutos, e depois desço, vou tomar passagem no paquete de amanhã.

D. LEOCÁDIA — Jante, ao menos, conosco.

CAVALCANTE — Janto na cidade.

D. LEOCÁDIA — Bem, adeus; guardemos o nosso segredo. Adeus, Dr. Cavalcante. Creia-me: o senhor merece estar doente. Há pessoas que adoecem sem merecimento nenhum; ao contrário, não merecem outra coisa mais que uma saúde de ferro. O senhor nasceu para adoecer; que obediência ao médico! que facilidade em engolir todas as nossas pílulas! Adeus!

CAVALCANTE — Adeus, D. Leocádia. (Sai pelo fundo).




CENA VIII

D. Leocádia, D. Adelaide

D. LEOCÁDIA — Com dois anos de China está curado. (Vendo entrar Adelaide). O Dr. Cavalcante saiu agora mesmo. Ouviste o meu exame médico?

D. ADELAIDE — Não. Que lhe pareceu?

D. LEOCÁDIA — Cura-se.

D. ADELAIDE — De que modo?

D. LEOCÁDIA — Não posso dizer; é segredo profissional.

D. ADELAIDE — Em quantas semanas fica bom?

D. LEOCÁDIA — Em dez anos.

D. ADELAIDE — Misericórdia! Dez anos!

D. LEOCÁDIA — Talvez dois; é moço, e robusto, a natureza ajudará a medicina, conquanto esteja muito atacado. Aí vem teu marido.




CENA IX

Os mesmos, Magalhães.

MAGALHÃES (a D. Leocádia) — Cavalcante disse-me que vai embora; eu vim correndo saber o que é que lhe receitou.

D. LEOCÁDIA — Receitei-lhe um remédio enérgico, mas que há de salva-lo. Não são consolações de cacaracá. Coitado! Sofre muito, está gravemente doente; mas, descansem, meus filhos, juro-lhes, à fé do meu grau, que hei de curá-lo. Tudo é que me obedeça, e este obedece. Oh! aquele crê em mim. E vocês, meus filhos? Como vão os meus doentezinhos? Não é verdade que estão curados? (Sai pelo fundo).




CENA X

Magalhães, D. Adelaide

MAGALHÃES — Tinha vontade de saber o que é que ela lhe receitou.

D. ADELAIDE — Não falemos disso.

MAGALHÃES — Sabes o que foi?

D. ADELAIDE — Não; mas titia disse-me que a cura se fará em dez anos. (Espanto de Magalhães). Sim, dez anos; talvez dois, mas a cura certa é em dez anos.

MAGALHÃES (atordoado) — Dez anos !

D. ADELAIDE — Ou dois!

MAGALHÃES — Ou dois?

D. ADELAIDE — Ou dez.

MAGALHÃES — Dez anos! Mas é impossível! Quis brincar contigo. Ninguém leva dez anos a sarar; ou sara antes ou morre.

D. ADELAIDE — Talvez ela pense que a melhor cura é a morte.

MAGALHÃES — Talvez. Dez anos!

D. ADELAIDE — Ou dois; não esqueças.

MAGALHÃES — Sim, ou dois; dois anos é muito, mas, há casos... Vou ter com ele.

D. ADELAIDE — Se titia quis enganar a gente, não é bom que os estranhos saibam. Vamos falar com ela, talvez que, pedindo muito, ela diga a verdade. Não leves essa cara assustada; é preciso falar-lhe naturalmente, com indiferença.

MAGALHÃES — Pois vamos.

D. ADELAIDE — Pensando bem, é melhor que eu vá só; entre mulheres...

MAGALHÃES — Não; ela continuará a zombar de ti; vamos juntos, estou sobre brasas.

D. ADELAIDE — Vamos.

MAGALHÃES — Dez anos!

D. ADELAIDE — Ou dois. (Saem pelo fundo).




CENA XI

D. CARLOTA (entrando pela direita) — Ninguém! Afinal foram-se! Esta casa anda hoje cheia de mistérios. Há um quarto de hora quis vir aqui, e prima Adelaide disse-me que não, que se tratavam aqui negócios graves. Pouco depois levantou-se e saiu; mas antes disso contou-me que mamãe é que quer que eu vá para a Grécia. A verdade é que todos me falam de Atenas, de ruínas, de danças gregas, de Acrópole... Creio que é Acrópole que se diz. (Pega no livro que Magalhães estivera lendo, senta-se, abre e lê). "Entre osprovérbios gregos, há um muito fino: Não consultes medico; consulta alguém que tenha estado doente". Não sei que possa ser.(Continua a ler em voz baixa).




CENA XII

D. Carlota, Cavalcante

CAVALCANTE (ao fundo) — D. Leocádia! (Entra e fala de longe a Carlota, que está de costas). Quando eu ia a sair, lembrei-me.

D. CARLOTA — Quem é? (Levanta-se). Ah! Doutor!

CAVALCANTE — Desculpe-me, vinha falar à senhora sua mãe para lhe pedir um favor.

D. CARLOTA — Vou chamá-la.

CAVALCANTE — Não se incomode; falar-lhe-ei logo. Saberá por acaso se a senhora sua mãe conhece algum cardeal em Roma?

D. CARLOTA — Não sei, não, senhor.

CAVALCANTE — Queria pedir-lhe uma carta de apresentação; voltarei mais tarde. (Corteja, sai e para). Ah! aproveito a ocasião para lhe perguntar, ainda uma vez, em que é que a ofendi?

D. CARLOTA — O senhor nunca me ofendeu.

CAVALCANTE — Certamente que não; mas ainda há pouco, falando-lhe de um tio meu, que morreu no Paraguai, tio João Pedro, capitão de engenharia...

D. CARLOTA (atalhando) — Por que é que o senhor quer ser apresentado a um cardeal?

CAVALCANTE — Bem respondido! Confesso que fui indiscreto com a minha pergunta. Já há de saber que eu tenho distrações repentinas, e quando não caio no ridículo, como hoje de manhã, caio na indiscrição. São segredos mais graves que os seus. É feliz, é bonita, pode contar com o futuro, enquanto que eu... Mas eu não quero aborrecê-la. O meu caso há de andar em romances.(Indicando o livro que ela tem na mão).

D. CARLOTA — Não é romance (Dá-lhe o livro).

CAVALCANTE — Não? (Lê o titulo). Como? Está estudando a Grécia?

D. CARLOTA — Estou.

CAVALCANTE — Vai para lá?

D. CARLOTA — Vou, com prima Adelaide.

CAVALCANTE — Viagem de recreio, ou vai tratar-se?

D. CARLOTA — Deixe-me ir chamar mamãe.

CAVALCANTE — Perdoe-me ainda uma vez; fui indiscreto, retiro-me. (Dá alguns passos para sair).

D. CARLOTA — Doutor! (Cavalcante pára). Não se zangue comigo; sou um pouco tonta, o senhor é bom.

CAVALCANTE (descendo) — Não diga que sou bom; os infelizes são apenas infelizes. A bondade é toda sua. Há poucos dias que nos conhecemos e já nos zangamos, por minha causa. Não proteste; a causa é a minha moléstia.

D. CARLOTA — O senhor está doente?

CAVALCANTE — Mortalmente.

D. CARLOTA — Não diga isso!

CAVALCANTE — Ou gravemente, se prefere.

D. CARLOTA — Ainda é muito. E que moléstia é?

CAVALCANTE Quanto ao nome, não há acordo: loucura, espírito romanesco e muitos outros. Alguns dizem que é amor. Olhe, está outra vez aborrecida comigo!

D. CARLOTA Oh! não, não, não. (Procurando rir). É o contrario; estou até muito alegre. Diz-me então que está doente, louco...

CAVALCANTE — Louco de amor, é o que alguns dizem. Os autores divergem. Eu prefiro amor, por ser mais bonito, mas a moléstia, qualquer que seja a causa, é cruel e terrível. Não pode compreender este imbróglio; peça a Deus que a conserve nessa boa e feliz ignorância. Por que é que me está olhando assim? Quer talvez saber...

D. CARLOTA — Não, não quero saber nada.

CAVALCANTE — Não é crime ser curiosa.

D. CARLOTA — Seja ou não loucura, não quero ouvir histórias como a sua.

CAVALCANTE — Já sabe qual é?

D. CARLOTA — Não.

CAVALCANTE — Não tenho direito de interrogá-la; mas há já dez minutos que estamos neste gabinete falando de coisas bem esquisitas para duas pessoas que apenas se conhecem.

D. CARLOTA (estendendo-lhe a mão) — Até logo.

CAVALCANTE — A sua mão está fria. Não se vá ainda embora; hão de achá-la agitada. Sossegue um pouco, sente-se. (Carlota senta-se). Eu retiro-me.

D. CARLOTA — Passe bem.

CAVALCANTE — Até logo.

D. CARLOTA — Volta logo?

CAVALCANTE — Não, não volto mais; queria enganá-la.

D. CARLOTA — Enganar-me por que?

CAVALCANTE — Porque já fui enganado uma vez. Ouça-me: são duas palavras. Eu gostava muito de uma moça que tinha a sua beleza, e ela casou com outro. Eis a minha moléstia.

D. CARLOTA (erguendo-se) — Como assim?

CAVALCANTE — É verdade; casou com outro.

D. CARLOTA (indignada) — Que ação vil!

CAVALCANTE — Não acha?

D. CARLOTA — E ela gostava do senhor?

CAVALCANTE — Aparentemente; mas, depois vi que eu não era mais que um passatempo.

D. CARLOTA (animando-se aos poucos) — Um passatempo! Fazia-lhe juramentos, dizia-lhe que o senhor era a sua única ambição, o seu verdadeiro Deus, parecia orgulhosa em contemplá-lo por horas infinitas, dizia-lhe tudo, tudo, umas coisas que pareciam cair do céu, e suspirava...

CAVALCANTE — Sim, suspirava, mas...

D. CARLOTA (muito animada) — Um dia abandonou-o, sem uma só palavra de saudade nem de consolação, fugiu e foi casar com uma viúva espanhola!

CAVALCANTE (espantado) — Uma viúva espanhola!

D. CARLOTA — Ah! tem muita razão em estar doente!

CAVALCANTE — Mas que viúva espanhola é essa de que me fala?

D. CARLOTA (caindo em si) — Eu falei-lhe de uma viúva espanhola?

CAVALCANTE — Falou.

D. CARLOTA — Foi engano... Adeus, Sr. doutor.

CAVALCANTE — Espere um instante. Creio que me compreendeu. Falou com tal paixão que os médicos não têm. Oh! como eu execro os médicos! principalmente os que me mandam para a China.

D. CARLOTA — O senhor vai para a China?

CAVALCANTE — Vou; mas não diga nada! Foi sua mãe que me deu essa receita.

D. CARLOTA — A China é muito longe!

CAVALCANTE — Creio até que está fora do mundo.

D. CARLOTA — Tão longe por que?

CAVALCANTE — Boa palavra essa. Sim, por que ir à China, se a gente pode sarar na Grécia? Dizem que a Grécia é muito eficaz para estas feridas; há quem afirme que não há melhor para as que são feitas pelos capitães de engenharia. Quanto tempo vai lá passar?

D. CARLOTA — Não sei. Um ano, talvez.

CAVALCANTE — Crê que eu possa sarar num ano?

D. CARLOTA — É possível.

CAVALCANTE — Talvez sejam precisos dois — dois ou três.

D. CARLOTA — Ou três.

CAVALCANTE — Quatro, cinco...

D. CARLOTA — Cinco, seis...

CAVALCANTE — Depende menos do país que da doença.

D. CARLOTA — Ou do doente.

CAVALCANTE — Ou do doente. Já a passagem do mar pode ser que me faça bem. A minha moléstia casou com um primo. A sua (perdoe esta outra indiscrição; é a última), a sua casou com a viúva espanhola. As espanholas, mormente viúvas, são detestáveis. Mas, diga-me uma coisa: se uma pessoa já está curada, que é que vai fazer à Grécia!

D. CARLOTA — Convalescer, naturalmente. O senhor, como ainda está doente, vai para a China.

CAVALCANTE — Tem razão. Entretanto, começo a ter medo de morrer... Pensou alguma vez na morte?

D. CARLOTA — Pensa-se nela, mas lá vem um dia em que a gente aceita a vida, seja como for.

CAVALCANTE — Vejo que sabe muita coisa...

D. CARLOTA — Não sei nada; sou uma tagarela, que o senhor obrigou a dar por paus e por pedras; mas, como é a última vez que nos vemos, não importa. Agora, passe bem.

CAVALCANTE — Adeus, D. Carlota!

D. CARLOTA — Adeus, doutor!

CAVALCANTE — Adeus. (Dá um passo para a porta do fundo). Talvez eu vá a Atenas; não fuja se me vir vestido de frade.

D. CARLOTA (indo a ele) — De frade? O senhor vai ser frade?

CAVALCANTE — Frade. Sua mãe aprova-me, contanto que eu vá à China. Parece-lhe que devo obedecer a esta vocação, ainda depois de perdida?

D. CARLOTA — É difícil obedecer a uma vocação perdida.

CAVALCANTE — Talvez nem a tivesse, e ninguém se deu ao trabalho de me dissuadir. Foi aqui, a seu lado, que comecei a mudar. A sua voz sai de um coração que padeceu também, e sabe falar a quem padece. Olhe, julgue-me doido, se quiser, mas eu vou pedir-lhe um favor: conceda-me que a ame. (Carlota, perturbada, volta o rosto). Não lhe peço que me ame, mas que se deixe amar; é um modo de ser grato. Se fosse uma santa, não podia impedir que lhe acendesse uma vela.

D. CARLOTA — Não falemos mais nisto e separemo-nos.

CAVALCANTE — A sua voz treme; olhe para mim...

D. CARLOTA — Adeus; aí vem mamãe.




CENA XIII

Os mesmos, D. Leocádia

D. LEOCÁDIA — Que é isto, doutor? Então o senhor quer só um ano de China? Vieram pedir-me que reduzisse a sua ausência.

CAVALCANTE — D. Carlota lhe dirá o que eu desejo.

D. CARLOTA — O doutor vem saber se mamãe conhece algum cardeal em Roma.

CAVALCANTE — A princípio era um cardeal; agora basta um vigário.

D. LEOCÁDIA — Um vigário? Para que?

CAVALCANTE — Não posso dizer.

D. LEOCÁDIA (a Carlota) — Deixa-nos sós, Carlota; o doutor quer fazer-me uma confidência.

CAVALCANTE — Não, não, ao contrário. D. Carlota pode ficar. O que eu quero dizer é que um vigário basta para casar.

D. LEOCÁDIA — Casar a quem?

CAVALCANTE — Não é já, falta-me ainda a noiva.

D. LEOCÁDIA — Mas quem é que me está falando?

CAVALCANTE — Sou eu, D. Leocádia.

D. LEOCÁDIA — O senhor! o senhor! o senhor!

CAVALCANTE — Eu mesmo. Pedi licença a alguém...

D. LEOCÁDIA — Para casar?




CENA XIV

Os mesmos, Magalhães, D. Adelaide

MAGALHÃES — Consentiu, titia?

D. LEOCÁDIA — Em reduzir a China a ano? Mas ele agora quer a vida inteira.

MAGALHÃES — Estás doido?

D. LEOCÁDIA — Sim, a vida inteira, mas é para casar. (D. Carlota fala baixo a D. Adelaide). Você entende, Magalhães?

CAVALCANTE — Eu, que devia entender, não entendo.

D. ADELAIDE (que ouviu D. Carlota) — Entendo eu. O Dr. Cavalcante contou as suas tristezas a Carlota, e Carlota, meia curada do seu próprio mal, expôs sem querer o que tinha sentido. Entenderam-se e casam-se.

D. LEOCÁDIA (a Carlota) — Deveras? (D. Carlota baixa os olhos). Bem; como é para saúde dos dois, concedo; são mais duas curas!

MAGALHÃES — Perdão; estas fizeram-se pela receita de um provérbio grego que está aqui neste livro. (Abre o livro) "Não consultes médico; consulta alguém que tenha estado doente".


FIM

Dia 02 de maio de 2009 1º aniversário de morte de Augusto Boal


criador do Teatro do Oprimido. O casaxv declara publicamente que trabalhará para manter e realizar o sonho deste entusiasta, que mudou a visão de mundo de muitos entre nós. E acreditamos que a arte e a cidadania é direito básico dos seres humanos. Tanto quanto a comida, a água, a saúde, a educação e cultura. Viva a Boal!!!

sábado, 1 de maio de 2010

7º Encontro Brasileiro de Teatro de Rua


Encontro Brasileiro de Teatro de Rua mobiliza
artistas e encanta o público gaúcho!

Fonte:http://teatroderuanobrasil.blogspot.com/

Está confirmado o 7º Encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua, que ocorre de 1 a 6 de Maio em Canoas – RS. O principal objetivo da organização do evento é apresentar, pensar e planejar o teatro de Rua, através de uma mostra de 17 peças teatrais brasileiras e do Mercosul, além de fomentar a arte e os artistas através de encontros e debates sobres os temas pertinentes a arte teatral ao ar livre.

Entre as apresentações estão confirmados importantes grupos nacionais como Cirquinho do Revirado (SC), Mamulengo da Folia (PE), Cia Circo Teatro Capixaba (ES), Bando La Trupe de Natal/RN e do Mercosul, como Grupo Circo Vê de Buenos Aires – Argentina.

As atrações estaduais ficam com os grupos De Pernas Pro Ar (Canoas), Cia TIA (Canoas), Timbre de Galo (Passo Fundo) Hora Vaga (Garibaldi), Ueba - Produtos Notáveis (Caxias do Sul). Da capital apresentam-se a Oigalê Cooperativa de Artistas, Grupo Manjericão, Grupo Mototóti, Povo da Rua teatrodegrupo, Cambada do Teatro em Ação Direta Levanta Favela..., Cia. UmPédeDois e Cia. Teatro Di Stravaganza.

O Encontro ainda recebe, além de um articulador de Teatro de Rua de cada estado brasileiro, o Núcleo de Pesquisadores de Teatro de Rua.

As apresentações, todas gratuitas, irão ocorrer entre os dias 1 e 3 de maio, respectivamente, no Parque Eduardo Gomes, Praque Capão do Corvo e Centro de Canoas, nas proximidades Calçadão/Prefeitura e os debates dos membros da Rede Brasileira de Teatro de Rua – RBTR - acontecerão na sede da AABB.

O 7º Encontro de Articuladores da Rede Brasileira de Teatro de Rua e o 1º Encontro de articuladores do Mercosul é uma realização da RBTR e da RBTR-RS, com apoio da Prefeitura Municipal de Canoas e Ministério da Cultura - Funarte.

TEATRO DO OPRIMIDO DE PONTO A PONTO – ENCONTROS E PRÁTICAS NO CENTRO-OESTE


Acontece nos dias 4, 5 e 6 de maio, em Brasília e Goiânia, o evento TEATRO DO OPRIMIDO DE PONTO A PONTO – ENCONTROS E PRÁTICAS NO CENTRO-OESTE, quando multiplicadores e praticantes do método criado pelo teatrólogo e ensaísta Augusto Boal se reúnem para discutir seus saberes e práticas. Na ocasião o público vai assistir a duas peças teatrais com atuação dos grupos praticantes do Teatro do Oprimido em Goiás. Ao final de cada apresentação alguns dos espectadores serão convidados a entrar em cena e, trocando de lugar com o protagonista, mostrar alternativas aos problemas encenados. Nas peças os atores encenam episódios da vida real, deles próprios.

A programação conta ainda com: o lançamento do livro póstumo, A Estética do Oprimido, considerado o testamento artístico de Augusto Boal, que pouco antes de falecer foi nomeado embaixador mundial do teatro pela Unesco; uma exposição de produtos artísticos produzidos pelos grupos locais, palestras e exibição de um curta metragem; e a Sessão Solene Simbólica de Teatro Legislativo.

“O espectador (ou espect-ator) da sessão de Teatro-Fórum não é um consumidor do bem cultural, mas sim um ativo interlocutor que é convidado a assumir o papel do oprimido ou de seus aliados para interagir na ação dramática de maneira a apresentar alternativas para transformar a realidade – ser ator de sua própria vida”, diz Ney Motta, assessor de comunicação.

“Na sessão de Teatro Legislativo, a platéia, além de fazer as intervenções substituindo o personagem oprimido, pode também sugerir propostas de Lei ou de ações concretas que tragam alternativas ao problema. Com o apoio de um assessor legislativo e um especialista no tema, serão selecionadas duas propostas para serem debatidas e votadas. As aprovadas serão encaminhadas ao Poder Legislativo ou às autoridades competentes. Através do Teatro Legislativo foram criadas 13 Leis Municipais na cidade do Rio de Janeiro, duas Leis Estaduais nesse estado e tramitam no Congresso Nacional dois Projetos de Lei”, afirma Olivar Bendelak, curinga do Centro de Teatro do Oprimido.

As atividades que acontecem em Brasília e Goânia, integram o PROJETO TEATRO DO OPRIMIDO DE PONTO A PONTO, cujo objetivo é a capacitação e acompanhamento de novos multiplicadores do método em 18 estados brasileiros e quatro países da África lusófona: Moçambique, Guiné-Bissau, Senegal e Angola. O Projeto é uma realização do Centro de Teatro do Oprimido (www.cto.org.br) com patrocínio do Ministério da Cultura, por intermédio do Programa Cultura Viva. O evento tem apoio da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes (DF) e Universidade Católica de Goiás.

SERVIÇO

4 de maio, terça-feira

10 às 12h – Oficina de Introdução ao Teatro do Oprimido

Local: Teatro da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes – SDS Nº 30/64 BLOCO “C” ED. FBT – Brasília/DF

Informações: (61) 3224-5369, 3224-5369 e 9228-5707 – c/ Silvia Paes

4 de maio, terça-feira

19 às 21h – Aula Espetáculo

Ministrada pela psicopedagoga Cláudia Simone, curinga do Centro de Teatro do Oprimido, e pela arte-educadora Silvia Paes, multiplicadora de Teatro do Oprimido no Centro-Oeste

Local: Teatro da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes – SDS Nº 30/64 BLOCO “C” ED. FBT – Brasília/DF

Informações: (61) 3224-5369, 3224-5369 e 9228-5707 – c/ Silvia Paes

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Tartufo - Jean-Baptiste Poquelin - (1622 - 1673)


Comédia em 5 atos, e uma das mais famosas da literatura francesa em todos os tempos. Sua primeira encenação data de 1664 e foi quase que imediatamente censurada pelos devotos religiosos que, no texto, foram retratados na personagem-título como hipócritas e dissimulados.

Os devotos sentiram-se ofendidos, e a peça quase foi proibida por esta razão, pelos tribunais do rei Luís XIV onde tinham grande influência.

No nosso idioma, o termo tartufo, como em outro idiomas, passou a ter a acepção de pessoa hipócrita ou falso religioso, originando ainda uma série de derivados como tartufice, tartúfico ou ainda o verbo tartuficar - significando enganar, ludibriar com atos de tartufice. Em época de Mensalão é um excelente texto para ser explorado. Viva a Molière!!!

Para saber mas: SITE

A Nossa Cidade – Thornton Wilder (1897 - 1975)


peça em três atos

conta-nos a história de uma pequena Cidade. O dia-a-dia da cidade desfila diante dos olhos conduzido pela narração de dois dos seus moradores, anfitriões da folia que celebra o milagre do Funchal, que, pouco a pouco, nos relatam vida de alguns dos seus habitantes.

Pequenos dramas, tons de comédia, namoros, intrigas, o descascar das ervilhas, o leiteiro que entrega o leite, os jovens que namoram, os primeiros sintomas de reumatismo, os segundos sintomas de reumatismo, os (milhões de) anos que passam, o comboio que parte para o Monte, um dragoeiro... o tempo como condutor da festa da vida e da morte.

Para saber mais: SITE