domingo, 2 de maio de 2010

Tu, só tu, puro amor - Teatro de Machado de Assis

Publicado originalmente em Revista Brasileira , Rio de Janeiro, 1880.

Tu só, tu, puro amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga...
Camões, Lusíadas, 3, CXIX.

O desfecho dos amores palacianos de Camões e de D. Catarina de Ataíde é o objeto da comédia, desfecho que deu lugar à subseqüente aventura de África, e mais tarde à partida para a Índia, donde o poeta devia regressar um dia com a imortalidade nas mãos. Não pretendi fazer um quadro da corte de D. João II, nem sei se o permitiam as proporções mínimas do escrito e a urgência da ocasião. Busquei sim haver-me de maneira que o poeta fosse contemporâneo de seus amores, não lhe dando feições épicas, e, por assim dizer, póstumas.

Na primeira impressão escrevi uma nota, que reproduzi na segunda, acrescentando-lhe alguma coisa explicativa. Como na cena primeira se trata da anedota que motivou o epigrama de Camões ao duque de Aveiro, disse eu ali que, posto se lhe não possa fixar data, usaria dela por me parecer um curioso rasgo de costumes. E aduzi: “Engana-se, creio eu, o Sr. Teófilo Braga, quando afirma que ela só podia ter ocorrido depois do regresso de Camões a Lisboa, alegando, para fundamentar essa opinião, que o título de duque de Aveiro foi criado em 1557. Digo que se engana o distinto escritor, porque eu encontro o duque de Aveiro, cinco anos antes, 1552, indo receber, na qualidade de embaixador, a princesa d. Joana, noiva do príncipe d. João (Veja Mem. e Doc. Anexos aos Anéis de d. João III, págs. 440 e 441); e, se Camões só em 1553 partiu para a Índia, não é impossível que o epigrama e o caso que lhe deu origem fossem anteriores.”

Temos ambos razão, o Sr. Teófilo Braga e eu. Com efeito, o ducado de Aveiro só foi criado formalmente em 1557, mas o agraciado usava o título desde muito antes, por mercê de D. João III: é o que confirma a própria carta régia de 30 de agosto daquele ano, textualmente inserta na Hist. Geneal... de D. Antônio Caetano de Souza, que cita em abono da asserção o testemunho de Andrade, na Crônica d’el-rei d, João III. Naquela mesma obra se lê (liv. IV, cap. V) que em 1551, na transladação dos ossos d’el-rei D, Manuel estivera presente o duque de Aveiro. Não é pois impossível que a anedota ocorresse antes da primeira ausência de Camões.

MACHADO DE ASSIS.

PERSONAGENS

CAMÕES
ANTÔNIO DE LIMA
CAMINHA
D. MANUEL DE PORTUGAL
D. CATARINA DE ATAÍDE
D. FRANCISCA DE ARAGÃO




Sala no paço



CENA I

CAMINHA, D. MANUEL DE PORTUGAL

(Caminha vem do fundo, da esquerda; vai a entrar pela porta da direita, quando lhe sai Manoel de Portugal, a rir).

CAMINHA — Alegre vindes, senhor D. Manuel de Portugal. Disse-vos El-rei alguma coisa graciosa, de certo...

D. MANUEL — Não; não foi El-rei. Adivinhai o que seria, se é que o não sabeis já.

CAMINHA — Que foi?

D. MANUEL — Sabeis o caso da galinha do duque de Aveiro?

CAMINHA — Não.

D. MANUEL — Não sabeis? — Pois é isto: uns versos mui galantes do nosso Camões. (Caminha estremece e faz um gesto de má vontade.) Uns versos como ele os sabe fazer. (À parte.) Doe-lhe a noticia. (Alto.) Mas, deveras não sabeis do encontro de Camões com o duque de Aveiro?

CAMINHA — Não.

D. MANUEL — Foi o próprio duque que mo contou agora mesmo, ao vir de estar com El-rei...

CAMINHA — Que houve então?

D. MANUEL — Eu vo-lo digo; achavam-se ontem, na igreja do Amparo, o duque e o poeta...

CAMINHA, com enfado. — O poeta! O poeta! Não é mais que engenhar aí uns poucos versos, para ser logo poeta! Desperdiçais o vosso entusiasmo, senhor D. Manuel. Poeta é o nosso Sá, o meu grande Sá! Mas, esse arruador, esse brigão de horas mortas...

D. MANUEL — Parece-vos então...?

CAMINHA — Que esse moço tem algum engenho, muito menos do que lhe diz a presunção dele e a cegueira dos amigos; algum engenho não lhe nego eu. Faz sonetos sofríveis. E canções... Digo-vos que li uma ou duas, não de todo mal alinhavadas. Pois então? Com boa vontade, mais esforço, menos soberba, gastando as noites, não a folgar pelas locandas de Lisboa, mas a meditar os poetas italianos, digo-vos que pode vir a ser...

D. MANUEL — Acabe.

CAMINHA — Está acabado: um poeta sofrível.

D. MANUEL — Deveras? Lembra-me que já isso mesmo lhe negastes.

CAMINHA, sorrindo. — No meu epigrama, não? E nego-lho ainda agora, se não fizer o que vos digo. Pareceu-vos gracioso o epigrama?Fi-lo por desenfado, não por ódio... Dizei, que tal vos pareceu ele?

D. MANUEL — Injusto, mas gracioso.

CAMINHA — Sim? Tenho em mui boa conta o vosso parecer. Algum tempo supus que me desdenháveis. Não era impossível que assim fosse. Intrigas da corte dão azo a muita injustiça; mas principalmente acreditei que fossem artes desse rixoso... Juro-vos que ele me tem ódio.

D. MANUEL — O Camões?

CAMINHA — Tem, tem...

D. MANUEL — Por quê?

CAMINHA — Não sei, mas tem. Adeus.

D. MANUEL — Ides-vos?

CAMINHA — Vou a El-rei, e depois ao meu senhor infante. (Corteja-o e dirige-se para a porta da direita. D. Manuel dirige-se para o fundo.)

D. Manuel, andando.

Eu já vi a taverneiro
vender vaca por carneiro...

CAMINHA, volta-se. — Recitais versos?... São vossos?... Não me negueis o gosto de os ouvir.

D. MANUEL — Meus não; são de Camões... (Repete, descendo a cena.)

Eu já vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro...

CAMINHA, sarcástico. — De Camões?... Galantes são. Nem Virgílio os daria melhores. Ora, fazei o favor de repetir comigo:

Eu já vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro...

— E depois vá, dizei-me o resto, que não quero perder iguaria de tão fino sabor.

D. MANUEL — O duque de Aveiro e o poeta encontraram-se ontem na igreja do Amparo. O duque prometeu ao poeta mandar-lhe uma galinha de sua mesa, mas só lhe mandou um assado. Camões retorquiu-lhe com estes versos, que o próprio duque me mostrou agora, a rir:

Eu já vi a taverneiro,
Vender vaca por carneiro.
Mas não vi, por vida minha,
vender vaca por galinha,
senão ao duque de Aveiro.

— Confessai, confessai senhor Caminha, vós que sois poeta, confessai que há aí certo pico, e uma simpleza de dizer... Não vale tanto de certo como os sonetos dele, alguns dos quais são sublimes, aquele por exemplo:

De amor escrevo, de amor trato e vivo...

ou este

Tanto de meu estado me acho incerto...

— Sabeis a continuação?

CAMINHA — Até lhe sei o fim:

Se me pergunta alguém porque assim ando
respondo que não sei, porém suspeito
que só porque vos vi, minha senhora.

— (Fitando-lhe muito os olhos.) Esta senhora... Sabeis vós, de certo, quem é esta senhora do poeta, como eu o sei, como o sabem todos... Naturalmente amam-se ainda muito?

D. Manuel, à parte. — Que quererá ele?

CAMINHA — Amam-se por força.

D. MANUEL — Cuido que não.

CAMINHA — Que não?

D. MANUEL — Acabou, como tudo acaba.

CAMINHA, sorrindo. — Anda lá; não sei se me dizeis tudo. Amigos sois, e não é impossível que também vós... Onde está a nossa gentil senhora D. Francisca de Aragão?

D. MANUEL — Que tem?

CAMINHA — Vede: um simples nome vos faz estremecer. Mas sossegai, que não sou vosso inimigo; mui ao contrário, amo-vos, e a ela também... e respeito-a muito. Um para o outro nascestes. Mas, adeus, faz-se tarde, vou ter com El-rei. (Sai pela direita.)




CENA II

DOM MANUEL DE PORTUGAL

— Este homem!... Este homem!... Como se os versos dele, duros e insossos... (Vai à porta por onde Caminha saiu e levanta o reposteiro.) Lá vai ele; vai cabisbaixo; rumina talvez alguma coisa. Que não sejam versos! (Ao fundo aparecem D. Antônio de Lima e D. Catarina de Ataíde.)




CENA III

D. MANUEL DE PORTUGAL, D. CATARINA DE ATAÍDE, D. ANTÔNIO DE LIMA

D. ANTÔNIO DE LIMA — Que espreitais aí, senhor D. Manuel.

D. MANUEL — Estava a ver o porte elegante do nosso Caminha. Não vades supor que era alguma dama. (Levanta o reposteiro.) Olhai, lá vai ele a desaparecer. Vai a El-rei.

D. ANTÔNIO — Também eu. Tu, não, minha boa Catarina. A rainha espera-te. (D. Catarina faz uma reverência e caminha para a porta da esquerda.) Vai, vai, minha gentil flor... (A D. Manuel.) Gentil, não a achais?

D. MANUEL — Gentilíssima.

D. ANTÔNIO — Agradece, Catarina.

D. CATARINA — Agradeço; mas o certo é que o senhor D. Manuel é rico de louvores...

D. MANUEL — Eu podia dizer que a natureza é que foi conosco pródiga de graças; mas, não digo; seria repetir mal aquilo que só poetas podem dizer bem. (D. Antônio fecha o rosto.) Dizem que também sou poeta, é verdade; não sei; faço versos. Adeus, senhor D. Antônio... (Corteja-os e sai. D. Catarina vai a entrar, à esquerda. D. Antônio detém-na.)




CENA IV

D. ANTÔNIO DE LIMA, D. CATARINA DE ATAÍDE

D. ANTÔNIO — Ouviste aquilo?

D. CATARINA, parando. — Aquilo?

D. ANTÔNIO — “Que só poetas podem dizer bem” foram as palavras dele. (D. Catarina aproxima-se.) Vês tu, filha? tão divulgadas andam já essas coisas, que até se dizem nas barbas de teu pai!

D. CATARINA — Senhor, um gracejo...

D. ANTÔNIO, enfadando-se. — Um gracejo injurioso, que eu não consinto, que não quero, que me dói... “Que só poetas podem dizer bem!” E que é poeta! Pergunta ao nosso Caminha o que é esse atrevido, o que vale a sua poesia... Mas, que seja outra e melhor, não a quero para mim, nem para ti. Não te criei para entregar-te às mãos do primeiro que passa, e lhe dá na cabeça haver-te.
D. CATARINA, procurando moderá-lo. — Meu pai...

D. ANTÔNIO — Teu pai e teu senhor!

D. CATARINA — Meu senhor e pai... juro-vos que... Juro-vos que vos quero e muito... Por quem sois, não vos irriteis contra mim!

D. ANTÔNIO — Jura que me obedecerás.

D. CATARINA — Não é essa a minha obrigação?

D. ANTÔNIO — Obrigação é, e a mais grave de todas. Olha-me bem, filha; eu amo-te como pai que sou. Agora, anda, vai.




CENA V

D. ANTÔNIO DE LIMA, D. CATARINA DE ATAÍDE, D. FRANCISCA DE ARAGÃO

D. ANTÔNIO — Mas não, não vás sem falar à senhora D. Francisca de Aragão, que aí nos aparece, fresca como a rosa que desabotoou agora mesmo, ou, como dizia a farsa do nosso Gil Vicente, que eu ouvi há tantos anos, por tempo do nosso sereníssimo senhor D. Manuel... Velho estou, minha formosa dama...

D. FRANCISCA — E que dizia a farsa?

D. ANTÔNIO — A farsa dizia:

É bonita como estrela,

Uma rosinha de Abril,

Uma frescura de maio,

Tão manhosa.

Tão sutil!

— Vede que a farsa adivinhava já a nossa D. Francisca de Aragão, uma frescura de maio, tão manhosa, tão sutil...

D. FRANCISCA — Manhosa, eu?

D. ANTÔNIO — E sutil. Não vos esqueça a rima, que é de lei. (Vai a sair pela porta da direita; aparece Camões.)




CENA VI

OS MESMOS, CAMÕES

D. CATARINA, à parte. — Ele!

D. FRANCISCA, baixo a D. Catarina. — Sossegai!

D. ANTÔNIO — Vinde cá, senhor poeta das galinhas. Já me chegou aos ouvidos o vosso lindo epigrama. Lindo, sim; e estou que não vos custaria mais tempo a fazê-lo do que eu a dizer-vos que me divertiu muito... E o duque? O duque, ainda não emendou a mão? Há de emendar, que não é nenhum mesquinho.

CAMÕES, alegremente. — Pois El-rei deseja o contrário...

D. ANTÔNIO — Ah! Sua Alteza falou-vos disso?... Contar-mo-eis em tempo. (A D. Catarina, com intenção). Minha filha e senhora, não ides ter com a rainha? Eu vou falar a El-rei. (D. Catarina corteja-os e dirige-se para a esquerda; D. Antônio sai pela direita.)




CENA VII

OS MESMOS, menos D. ANTÔNIO DE LIMA

(D. Catarina quer sair, D. Francisca de Aragão detém-na.)

D. FRANCISCA — Ficai, ficai...

D. CATARINA — Deixe-me ir!

CAMÕES — Fugis de mim?

D. CATARINA — Fujo... Assim o querem todos.

CAMÕES — Todos quem?

D. FRANCISCA, indo a Camões. — Sossegai. Tendes, na verdade, um gênio, uns espíritos... Que há de ser? Corre a mais e mais a notícia dos vossos amores... e o senhor D. Antônio, que é pai, e pai severo...

CAMÕES, vivamente a D. Catarina. — Ameaça-vos?

D. CATARINA — Não; dá-me conselhos... bons conselhos, meu Luís. Não vos quer mal, não quer... Vamos lá; eu é que sou desatinada. Mas passou. Dizei-nos lá esses versos de que faláveis há pouco. Um epigrama, não é? Há de ser tão bonito como os outros... menosum.

CAMÕES — Um?

D. CATARINA — Sim, o que fizestes a D. Guiomar de Blasfé.

CAMÕES, com desdém. — Que monta? Bem frouxos versos.

D. FRANCISCA — Não tanto; mas eram feitos a D. Guiomar, e os piores versos deste mundo são os que se fazem a outras damas. (A D. Catarina.) Acertei? (A Camões.) Ora, andai, vou deixar-vos; dizei o caso do vosso epigrama, não a mim, que já o sei de cor, porém a ela que ainda não sabe nada... E que foi que vos disse El-rei?

CAMÕES — El-rei viu-me, e dignou-se chamar-me; fitou-me um pouco a sua real vista, e disse com brandura: — «Tomara eu, senhor poeta, que todos os duques vos faltem com galinhas, por que assim nos alegrareis com versos tão chistosos.

D. FRANCISCA — Disse-vos isto? é um grande espírito El-rei!

D. CATARINA, a D. Francisca. — Não é? (A Camões.) E vós que lhe dissestes?

CAMÕES — Eu? nada... ou quase nada. Era tão inopinado louvor que me tomou a fala. E, contudo, se eu pudesse responder agora... agora que recobrei os espíritos... dir-lhe-ia que há aqui (leva a mão à fronte) alguma coisa mais do que simples versos de desenfado... dir-lhe-ia que... (Fica absorto um instante, depois olha alternadamente para as duas damas, entre as quais se acha.)Um sonho... às vezes cuido conter cá dentro mais do que a minha vida e o meu século... Sonhos... sonhos! A realidade é que vós sois as duas mais lindas damas da cristandade, e que o amor é a alma do universo!

D. FRANCISCA — O amor e a espada, senhor brigão!

CAMÕES, alegremente. — Por que me não dais logo as alcunhas que me hão de ter posto os poltrões do Rocio? Vingam-se com isso, que é a desforra da poltroneria... Não sabeis? Naturalmente não; vós gastais as horas nos lavores e recreios do paço; mora aqui a doce paz do espírito.

D. CATARINA, com intenção. — Nem sempre.

D. FRANCISCA — Isto é convosco; e eu, que posso ser indiscreta, não me detenho a ouvir mais nada. (Dá alguns passos para ofundo.)

D. CATARINA — Vinde cá...

D. FRANCISCA — Vou-me... vou a consolar o nosso Caminha, que há de estar um pouco enfadado... Ouviu ele o que El-rei vos disse?

CAMÕES — Ouviu; que tem?

D. FRANCISCA — Não ouviria de boa sombra.

CAMÕES — Pode ser que não... dizem-me que não. (A D. Catarina.) Pareceis inquieta...

D. CATARINA, a D. Francisca. — Não, não vades; ficai um instante.

CAMÕES, a D. Francisca. — Irei eu.

D. FRANCISCA — Não, senhor; irei eu só. (Sai pelo fundo.)




CENA VIII

CAMÕES, D. CATARINA DE ATAÍDE

CAMÕES, com uma reverência. — Irei eu. Adeus, minha senhora D. Catarina de Ataíde! (D. Catarina dá um passo para ele.)Mantenha-vos Deus na sua santa guarda.

D. CATARINA — Não... vinde cá... (Camões detém-se.) Enfadei-vos? Vinde um pouco mais perto. (Camões aproxima-se.) Que vos fizeu? Duvidais de mim?

CAMÕES — Cuido que me quereis ausente.

D. CATARINA — Luís! (Inquieta.) Vede esta sala, estas paredes... falarmos a sós... Duvidais de mim?

CAMÕES — Não duvido de vós; não duvido da vossa ternura: da vossa firmeza é que eu duvido.

D. CATARINA — Receais que fraqueie algum dia?

CAMÕES — Receio; chorareis muitas lágrimas, muitas e amargas... mas, cuido que fraqueareis.

D. CATARINA — Luís! juro-vos...

CAMÕES — Perdoai, se vos ofende esta palavra. Ela é sincera: subiu-me do coração à boca. Não posso guardar a verdade; perder-me-ei algum dia por dizê-la sem rebuço. Assim me fez a natureza; assim irei à sepultura.

D. CATARINA — Não, não fraquearei, juro-vos. Amo-vos muito, bem o sabeis. Posso chegar a afrontar tudo, até a cólera de meu pai. Vede lá, estamos a sós; se nos vira alguém... (Camões dá um passo para sair.) Não, vinde cá. Mas, se nos vira alguém, defronte um do outro, no meio de uma sala deserta, que pensaria? Não sei que pensaria; tinha medo há pouco, já não tenho medo... amor sim... O que eu tenho é amor, meu Luís.

CAMÕES — Minha boa Catarina.

D. CATARINA — Não me chameis boa, que eu não sei se o sou... Nem boa, nem má.

CAMÕES — Divina sois .

D. CATARINA — Não me deis nomes que são sacrilégios.

CAMÕES — Que outro vos cabe?

D. CATARINA — Nenhum.

CAMÕES — Nenhum? — Simplesmente a minha doce e formosa senhora D. Catarina de Ataíde, uma ninfa do paço, que se lembrou de amar um triste escudeiro, sem se lembrar que seu pai a guarda para algum solar opulento, algum grande cargo de camareira-mor. Tudo isso havereis, enquanto que o coitado de Camões irá morrer em África ou Ásia...

D. CATARINA — Teimoso sois! Sempre essas idéias de África...

CAMÕES — Ou Ásia. Que tem isso? Digo-vos que, às vezes, a dormir, imagino lá estar, longe dos galanteios da corte, armado em guerra, diante do gentio. Imaginai agora...

D. CATARINA — Não imagino nada; vós sois meu, tão só meu, tão-somente meu. Que me importa o gentio, ou o Turco, ou que quer que é, que não sei, nem quero? Tinha que ver, se me deixáveis, para ir às vossas Áfricas... E os meus sonetos? Quem mos havia de fazer, meu rico poeta?

CAMÕES — Não faltará quem vo-los faça, e da maior perfeição.

D. CATARINA — Pode ser; mas eu quero-os ruins, como os vossos... como aquele da Circe, o meu retrato, dissestes vós.
CAMÕES, recitando.

Um mover de olhos, brando e piedoso.
Sem ver de que; um riso brando e honesto,
Quase forçado um doce e humilde gesto
De qualquer alegria duvidoso...

D. CATARINA — Não acabeis, que me obrigareis a fugir de vexada.

CAMÕES — De vexada! Quando é que a rosa se vexou, por que o sol a beijou de longe?

D. CATARINA — Bem respondido, meu claro sol.

CAMÕES — Deixai-me repetir que sois divina. Natércia minha, pode a sorte separar-nos, ou a morte de um ou de outro; mas o amor subsiste, longe ou perto, na morte ou na vida, no mais baixo estado, ou no cimo das grandezas humanas, não é assim? Deixai-me crê-lo, ao menos; deixai-me crer que há um vínculo secreto e forte, que nem os homens, nem a própria natureza poderia já destruir. Deixai-me crer... Não me ouvis?

D. CATARINA — Ouço, ouço.

CAMÕES — Crer que a última palavra de vossos lábios será o meu nome. Será? Tenha eu esta fé, e não se me dará da adversidade; sentir-me-ei afortunado e grande. Grande, ouvis bem? Maior que todos os demais homens.

D. CATARINA — Acabai!

CAMÕES — Que mais?

D. CATARINA — Não sei; mas é tão doce ouvir-vos! Acabai, acabai, meu poeta! Ou antes, não, não acabeis; falai sempre, deixai-me ficar perpetuamente a escutar-vos.

CAMÕES — Ai de nós! A perpetuidade é um simples instante, um instante em que nos deixam sós nesta sala! (D. Catarina afasta-se rapidamente.) Olhai; só a idéia do perigo vos arredou de mim.

D. CATARINA — Na verdade, se nos vissem... Se alguém aí, por esses reposteiros... Adeus...

CAMÕES — Medrosa, eterna medrosa!

D. CATARINA — Pode ser que sim; mas não está isso mesmo no meu retrato?

Um encolhido ousar, uma brandura,
Um medo sem ter culpa; um ar sereno,
Um longo e obediente sofrimento...

CAMÕES -

Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.

D. CATARINA, indo a ele. — Pois então? A vossa Circe manda-vos que não duvideis dela, que lhe perdoeis os medos, tão próprios do lugar e da condição; manda-vos crer e amar. Se ela às vezes foge, é porque a espreitam; se vos não responde, é porque outros ouvidos poderiam escutá-la. Entendeis? É o que vos manda dizer a vossa Circe, meu poeta... e agora... (Estende-lhe a mão.) Adeus!

CAMÕES — Ides-vos?

D. CATARINA — A rainha espera-me. Audazes fomos, Luís. Não desafiemos o paço... que esses reposteiros...

CAMÕES — Deixa-me ir ver!

D. CATARINA, detendo-o. — Não, não. Separemo-nos.

CAMÕES — Adeus! (D. Catarina dirige-se para a porta da esquerda; Camões olha para a porta da direita.)

D. CATARINA — Andai, andai!

CAMÕES — Um instante ainda!

D. CATARINA — Imprudente! Por quem sois, ide-vos meu Luís!

CAMÕES — A rainha espera-vos?

D. CATARINA — Espera.

CAMÕES — Tão raro é ver-vos!

D. CATARINA — Não afrontemos o céu... podem dar conosco...

CAMÕES — Que venham! Tomara eu que nos vissem! Bradaria a todos o meu amor, e a que o faria respeitar!

D. CATARINA, aflita pegando-lhe na mão. — Reparai, meu Luís, reparai onde estais, quem eu sou, o que são estas paredes... domaiesse gênio arrebatado, peço-vo-lo eu. Ide-vos em boa paz, sim?

CAMÕES — Viva a minha corça gentil, a minha tímida corça! Ora vos juro que me vou, e de corrida. Adeus!

D. CATARINA — Adeus!

CAMÕES, com a mão dela presa. — Adeus

D. CATARINA — Ide... deixai-me ir!

CAMÕES — Hoje há luar; se virdes um embuçado diante das vossas janelas, quedado a olhar para cima, desconfiai que sou eu; e então, já não é o sol a beijar de longe uma rosa, é o goivo que pede calor a uma estrela.

D. CATARINA — Cautela, não vos reconheçam.

CAMÕES — Cautela haverei; mas, que me reconheçam, que tem isso? embargarei a palavra ao importuno.

D. CATARINA — Sossegai. Adeus!

CAMÕES — Adeus!

(D. Catarina dirige-se para a porta da esquerda, e pára diante dela, à espera que Camões saia. Camões corteja-a com um gesto gracioso, e dirige-se para o fundo. — Levanta-se o reposteiro da porta da direita, e aparece Caminha. — D. Catarina dá um pequeno grito, e sai precipitadamente. — Camões detém-se. Os dois homens olham-se por um instante.)




CENA IX

CAMÕES, CAMINHA

CAMINHA, entrando. — Discreteáveis com alguém, ao que parece...

CAMÕES — É verdade.

CAMINHA — Ouvi de longe a vossa fala, e reconheci-a. Vi logo que era o nosso poeta, de quem tratava há pouco com alguns fidalgos.Sois o bem-amado, entre os últimos de Coimbra. — Com que, discreteáveis... Com alguma dama?

CAMÕES — Com uma dama.

CAMINHA — Certamente formosa, que não as há de outra casta nestes reais paços. Sua Alteza cuido que continuará, e ainda em bem, algumas boas tradições de El-rei seu pai. Damas formosas, e, quanto possível, letradas. São estes, dizem, os bons costumes italianos.É vós, senhor Camões, por que não ides à Itália?

CAMÕES — Irei à Itália, mas passando por África.

CAMINHA — Ah! Ah! para lá deixar primeiro um braço, uma perna, ou um olho... Não, poupai os olhos, que são o feitiço dessas damas da corte; poupai também a mão, com que nos haveis de escrever tão lindos versos; isto vos digo que poupai...

CAMÕES — Uma palavra, senhor Pero de Andrade. Uma só palavra, mas sincera.

CAMINHA — Dizei.

CAMÕES — Dissimulais algum outro pensamento. Revelai-mo... intimo-vos que mo reveleis.

CAMINHA — Ide à Itália, senhor Camões, ide à Itália.

CAMÕES — Não resistireis muito tempo ao que vos mando.

CAMINHA — Ou à África, se o quereis... ou à Babilônia... À Babilônia melhor; levai a harpa do desterro, mas em vez de a pendurar de um salgueiro, como na Escritura, cantar-nos-eis a linda copla da galinha, ou comporeis umas outras voltas ao mote, que já vos serviu tão bem:

Perdigão perdeu a pena,

Não há mal que lhe não venha.

Ide à Babilônia, senhor Perdigão!

CAMÕES, pegando-lhe no pulso. — Por vida minha, calai-vos!

CAMINHA — Vede o lugar em que estais.

CAMÕES, solta-o. — Vejo; vejo também quem sois; só não vejo o que odiais em mim.

CAMINHA — Nada.

CAMÕES — Nada?

CAMINHA — Coisa nenhuma.

CAMÕES — Mentis pela gorja, senhor camareiro.

CAMINHA — Minto? Vede lá; ia-me deixando arrebatar, ia conspurcando com alguma vilania esta sala de El-rei. Retraí-me a tempo. Menti, dizeis vós? — Pode ser que sim, porque eu creio que efetivamente vos odeio, mas só há um instante, depois que me pagastes com uma injúria o aviso que vos dei.

CAMÕES — Um aviso?

CAMINHA — Nada menos. Queria eu dizer-vos que as paredes do paço nem são mudas, nem sempre são caladas.

CAMÕES — Não serão; mas eu as farei caladas.

CAMINHA — Pode ser. Essa dama era...?

CAMÕES — Não reparei bem.

CAMINHA — Fizestes mal; é prudência reparar nas damas; prudência e cortesia. Com que, ides à África? Lá estão os nossos emMazagão, cometendo façanhas contra essa canalha de Mafamede; imitai-os. Vede, não deixeis lá esse braço, com que nos haveis de calar as paredes os reposteiros. É conselho de amigo.

CAMÕES — Por que sereis meu amigo?

CAMINHA — Não digo que o seja; o conselho é que o é.

CAMÕES — Credes, então...?

CAMINHA — Que poupareis uma grande dor e um maior escândalo.

CAMÕES — Percebo-vos. Imaginais que amo alguma dama? Suponhamos que sim. Qual é o meu delito? Em que ordenação, em que rescrito, em que bula, em que escritura, divina ou humana, foi já dado como delito amarem-se duas criaturas?

CAMINHA — Deixai a corte.

CAMÕES — Digo-vos que não.

CAMINHA — Oxalá que não!

CAMÕES, à parte. — Este homem... que há neste homem? Lealdade ou perfídia? (Alto.) Adeus, senhor Caminha. (Pára no meio da cena). Por que não tratamos de versos?... Fora muito melhor...

CAMINHA. — Adeus, senhor Camões. (Camões sai.)




CENA X

CAMINHA, logo D. CATARINA DE ATAÍDE


CAMINHA – Ide, ide, magro poeta de camarins... (Desce ao proscênio.) Era ela, de certo, era ela que aí estava com ele, no meio do paço, esquecidos de El-rei e de todos... Oh temeridade do amor! Do amor? ele... ele... Mas seria ela deveras?... Que outra podia ser?

D. CATARINA, espreita e entra. — Senhor... senhor...

CAMINHA — Ela!

D. CATARINA — Ouvi tudo... tudo o que lhe dissestes... e peço-vos que não nos façais mal. Sois amigo de meu pai, ele é vosso amigo; não lhe digais nada. Fui imprudente, fui, mas que quereis? (Vendo que Caminha não diz nada.) Então? falai... poderei contar convosco?

CAMINHA — Comigo? (D. Catarina inquieta, aflita, pega-lhe na mão; ele retira-lha com aspereza.) Contar comigo! para que, minha senhora D. Catarina? Amais um mancebo digno, por que vós o amais... muito, não?

D. CATARINA — Muito.

CAMINHA — Muito, dizeis... E éreis vós que estáveis aqui, com ele, nesta sala solitária, juntos um do outro, a falarem naturalmente do céu e da terra... ou só do céu, que é a terra dos namorados. Que dizeis?...

D. CATARINA, baixando os olhos. — Senhor...

CAMINHA — Galanteios, galanteios, de que se há de falar lá fora... (Gesto de D. Catarina.) Ah! cuidais que estes amores nascem e morrem no paço? — Não; passam além; descem à rua, são o mantimento dos ociosos e ainda dos que trabalham, porque, ao serão, principalmente nas noites de inverno, em que se há de ocupar a gente, depois de fazer as suas orações? Com que, éreis vós? Poisdigo-vos que o não sabia; suspeitava, porque não podia talvez ser outra... E confessais que lhe quereis muito. Muito?

D. CATARINA — Pode ser fraqueza; mas crime...onde está o crime?

CAMINHA — O crime está em desonrar as cãs de um nobre homem, arrastando-lhe o nome por vielas e praças; o crime está em escandalizar a corte, com essas ternuras, impróprias do alto cargo que exerceis, do vosso sexo e estado... esse é o crime. E parece-vos pequeno?

D. CATARINA — Bem; desculpai-me, não direis nada...

CAMINHA — Não sei.

D. CATARINA — Peço-vos... de joelhos até... (Faz um gesto para ajoelhar-se, ele impede-lho.)

CAMINHA — Perderíeis o tempo; eu sou amigo de vosso pai.

D. CATARINA — Contar-lhe-eis tudo?

CAMINHA — Talvez.

D. CATARINA — Bem mo diziam sempre; sois inimigo de Camões.

CAMINHA — E sou.

D. CATARINA — Que vos fez ele?

CAMINHA — Que me fez? (Pausa.) D. Catarina de Ataíde, quereis saber o que me fez o vosso Camões? Não é só a sua soberba que me afronta; fosse só isso, e que me importava um frouxo cerzidor de palavras, sem arte nem conceito?

D. CATARINA — Acabai.

CAMINHA — Também não é porque ele vos ama, que eu o odeio; mas vós, senhora D. Catarina de Ataíde, vós o amais... eis o crime de Camões. Entendeis?

D. Catarina, depois de um instante de assombro. — Não quero entender.

CAMINHA — Sim, que também eu vos quero, ouvis? — E quero-vos muito... mais do que ele, e melhor do que ele; porque o meu amor tem o impulso do ódio, nutre-se do silêncio, o desdém o avigora, e não faço alarde nem escândalo; é um amor...

D. CATARINA — Calai-vos! Pela Virgem, calai-vos!

CAMINHA — Que me cale? Obedecerei. (Faz uma reverência.) Mandais alguma outra coisa?

D. CATARINA — Não, ficai, ficai. Jurai-me que não direis nada...

CAMINHA — Depois da confissão que vos fiz, esse pedido chega a ser mofa. Que não diga nada? Direi tudo, revelarei tudo a vosso pai. Não sei se a ação é má ou boa; sei que vos amo, e que detesto esse rufião, a quem vadios deram foros de letrado.

D. CATARINA — Senhor! É demais!

CAMINHA — Defendei-o, não é assim?

D. CATARINA — Odiai-o, se vos apraz; insulta-o, é que não é de cavaleiro...

CAMINHA — Que tem? O amor desprezado sangra e fere.

D. CATARINA — Deixai que lhe chame um amor vilão.

CAMINHA — Sois vós agora que me injuriais. Adeus, senhora D. Catarina de Ataíde! (Dirige-se para o fundo.)

D. CATARINA, tomando-lhe o passo. — Não! Agora não vos peço... intimo-vos que vos caleis.

CAMINHA — Que recompensa me dais?

D. CATARINA — A vossa consciência.

CAMINHA — Deixai em paz os que dormem. Quereis que vos prometa alguma coisa? Uma só coisa prometo; não contar a vosso pai o que se passou. Mas, se por denúncia ou desconfiança, for interrogado por ele, então lhe direi tudo. E duas vezes farei bem: — não faltarei à verdade, que é dever de cavaleiro; e depois... chorareis lágrimas de sangue; e eu prefiro ver-vos chorar a ver-vos sorrir. A vossa angústia será a minha consolação. Onde falecerdes de pura saudade, ai me glorificarei eu. Chamai-me agora perverso, se o quereis; eu respondo que vos amo, e que não tenho outra virtude. (Vai a sair, encontra-se com D. Francisca de Aragão; corteja-a e sai.)




CENA XI

D. CATARINA DE ATAÍDE, D. FRANCISCA DE ARAGÃO


D. FRANCISCA — Vai afrontado o nosso poeta. Que terá ele? (Reparando em D. Catarina. ) Que tendes vós? Que foi?

D. CATARINA — Tudo sabe.

D. FRANCISCA — Quem?

D. CATARINA — Esse homem. Achou-nos nesta sala; eu tive medo; disse-lhe tudo.

D. FRANCISCA — Imprudente!

D. CATARINA — Duas vezes imprudente; deixei-me estar ao lado do meu Luís, a ouvir-lhe as palavras tão nobres, tão apaixonadas... eo tempo corria... e podiam espreitar-nos... Credes que o Caminha diga alguma coisa a meu pai?

D. FRANCISCA — Talvez não.

D. CATARINA — Quem sabe? Ele ama-me.

D. FRANCISCA — O Caminha?

D. CATARINA — Disse-mo agora. Que admira? Acha-me formosa, como os outros. Triste dom é esse. Sou formosa para não ser feliz, para ser amada às ocultas, odiada às escancaras, e, talvez... Se meu pai vier a saber... que fará ele, amiga minha?

D. FRANCISCA — O senhor D. Antônio é tão severo!

D. CATARINA — Irá ter com El-rei, pedir-lhe-á que o castigue, que o encarcere, não? E por minha causa... Não; primeiro irei eu...(Dirige-se para a porta da direita.)

D. FRANCISCA — Onde ides?

D. CATARINA — Vou falar a El-rei... Ou, não... (Encaminha-se para a porta da esquerda.) Vou ter com a rainha; contar-lhe-ei tudo; ela me amparará. Credes que não?

D. FRANCISCA — Creio que sim.

D. CATARINA — Irei, ajoelhar-me-ei a seus pés. Ela é rainha, mas é também mulher... e ama-me. (Sai pela esquerda.)




CENA XII

D. FRANCISCA DE ARAGÃO, D. ANTÔNIO DE LIMA, depois, D. MANUEL DE PORTUGAL

D. FRANCISCA, depois de um momento de reflexão. — Talvez chegue cedo demais. (Dá um passo para a porta da esquerda.) Não; melhor é que lhe fale... mas, se se aventa a notícia? Meu Deus, não sei... não sei... Ouço passos... Entra D. Antônio de Lima. Ah!

D. ANTÔNIO — Que foi?

D. FRANCISCA — Nada, nada... não sabia quem era. Sois vós... (Risonha.) Chegaram galeões da Ásia; boas notícias, dizem...

D. ANTÔNIO — Eu não ouvi dizer nada. (Querendo retirar-se.) Permitis?...

D. FRANCISCA — Jesus! Que tendes? Que ar é esse? (Vendo entrar D. Manuel de Portugal.) Vinde cá, senhor D. Manuel de Portugal, vinde saber o que tem este meu bom e velho amigo, que me não quer... (Segurando na mão de D. Antônio ). Então, eu já não sou a vossa frescura de maio?

D. ANTÔNIO, sorrindo a custo. — Sois, sois. Manhosamente sutil, ou sutilmente manhosa, à escolha; eu é que sou uma triste secura de dezembro, que me vou e vos deixo. Permitis, não? (Corteja-a e dirige-se para a porta.)

D. MANUEL, interpondo-se. — Deixai que vos levante o reposteiro. (Levanta o reposteiro.) Ides ter com Sua Alteza, suponho?

D. ANTÔNIO — Vou.

D. MANUEL — Ides levar-lhe notícias da Índia?

D. ANTÔNIO — Sabeis que não é o meu cargo...

D. MANUEL — Sei, sei; mas dizem que... Senhor D. Antônio, acho-vos o rosto anuviado, alguma coisa vos penaliza ou turva. Sabeis que sou vosso amigo; perdoai se vos interrogo. Que foi? Que há?

D. ANTÔNIO, gravemente. — Senhor D. Manuel, tendes vinte e sete anos, eu conto sessenta; deixai-me passar. (D. Manuel inclina-se, levantando o reposteiro. D. Antônio desaparece.)




CENA XIII

D. MANUEL DE PORTUGAL, D. FRANCISCA DE ARAGÃO

D. MANUEL — Vai dizer tudo a El-rei.

D. FRANCISCA — Credes?

D. MANUEL — Camões contou-me o encontro que tivera com o Caminha aqui; eu ia falar ao senhor D. Antônio; achei-o agora mesmo, ao pé de uma janela, com o dissimulado Caminha, que lhe dizia: "Não vos nego, senhor D. Antônio, que os achei naquela sala, a sós e que vossa filha fugiu desde que eu lá entrei."

D. FRANCISCA — Ouvistes isso?

D. MANUEL — D. Antônio ficou severo e triste. “Querem escândalo?...” foram as suas palavras. E não disse outras; apertou a mão ao Caminha, e seguiu para cá... Penso que foi pedir alguma coisa a El-rei. Talvez o desterro.

D. FRANCISCA — O desterro?

D. MANUEL — Talvez. Camões há de voltar agora aqui; disse-me que viria falar ao senhor D. Antônio. Para quê? Que outros lhe falem, sim; mas o meu Luís que não sabe conter-se... D. Catarina?

D. FRANCISCA — Foi lançar-se aos pés da rainha, a pedir-lhe proteção.

D. MANUEL — Outra imprudência. Foi há muito?

D. FRANCISCA — Pouco há.

D. MANUEL — Ide ter com ela, se é tempo, dizei-lhe que não, que não convém falar nada. (D. Francisca vai a sair, e pára ) Recusais?

D. FRANCISCA — Vou, vou. Pensava comigo uma coisa. (D. Manuel vai a ela.) Pensava que é preciso querer muito aqueles dois para nos esquecermos assim de nós.

D. MANUEL — É verdade. E não há mais nobre motivo da nossa mútua indiferença. Indiferença, não; não o é, nem o podia ser nunca. No meio de toda essa angústia que nos cerca, poderia eu esquecer a minha doce Aragão? Poderíeis vós esquecer-me. Ide agora, nós que somos felizes, temos o dever de consolar os desgraçados. (D. Francisca sai pela esquerda.)




CENA XIV

D. MANUEL DE PORTUGAL, logo D. ANTÔNIO DE LIMA

D. MANUEL — Se perco o confidente dos meus amores, da minha mocidade, o meu companheiro de longas horas... Não é impossível. —El-rei concederá o que lhe pedir D. Antônio. A culpa, — força é confessá-lo, — a culpa é dele, do meu Camões, do meu impetuoso poeta; um coração sem freio... (Abre-se o reposteiro, aparece D. Antônio.) D. Antônio!

D. ANTÔNIO, da porta, jubiloso. — Interrogastes-me há pouco; agora hei tempo de vos responder.

D. MANUEL — Talvez não seja preciso.

D. ANTÔNIO, adianta-se — Adivinhais então?

D. MANUEL — Pode ser que sim.

D. ANTÔNIO — Creio que adivinhais.

D. MANUEL — Sua Alteza concedeu-vos o desterro de Camões.

D. ANTÔNIO — Esse é o nome da pena: a realidade é que Sua Alteza restituiu a honra a um vassalo, e a paz a um ancião.

D. MANUEL — Senhor D. Antônio...

D. ANTÔNIO — Nem mais uma palavra, senhor D. Manuel de Portugal, nem mais uma palavra. — Mancebo sois; é natural que vos ponhais do lado do amor; eu sou velho, e a velhice ama o respeito. Até à vista, senhor D. Manuel, e não turveis o meu contentamento. (Dá um passo para sair.)

D. MANUEL — Se matais vossa filha?

D. ANTÔNIO — Não a matarei. Amores fáceis de curar são esses que aí brotam no meio de galanteios e versos. Versos curam tudo. Só não curam a honra os versos; mas para a honra dá Deus um rei austero, em pai inflexível... Até à vista, senhor D. Manuel. (Sai pela esquerda.)




CENA XV

D. MANUEL DE PORTUGAL, logo CAMÕES

D. MANUEL — Perdido... está tudo perdido.(Camões entra pelo fundo.) Meu pobre Luís! Se soubesses...

CAMÕES — Que há?

D. MANUEL — El-rei... El-rei atendeu às súplicas do senhor D. Antônio. Está tudo perdido.

CAMÕES — E que pena me cabe?

D. MANUEL — Desterra-vos da corte.

CAMÕES — Desterrado! Mas eu vou ter com Sua Alteza, eu direi...

D. MANUEL, aquietando-o. — Não direis nada; não tendes mais que cumprir a real ordem; deixai que os vossos amigos façam alguma coisa; talvez logrem abrandar o rigor da pena. Vós não fareis mais do que agravá-la.

CAMÕES — Desterrado! E para onde?

D. MANUEL — Não sei. Desterrado da corte é o que é certo. Vede... não há mais demorar no paço. Saiamos.

CAMÕES — Aí me vou eu, pois, caminho do desterro, e não sei se da miséria! Venceu então o Caminha? Talvez os versos dele fiquem assim melhores. Se nos vai dar uma nova Eneida, o Caminha? Pode ser, tudo pode ser... Desterrado da corte! Cá me ficam os melhores dias, e as mais fundas saudades. Crede, senhor D. Manuel, podeis crer que as mais fundas saudades cá me ficam.

D. MANUEL — Tornareis, tornareis...

CAMÕES — E ela? Já o saberá ela?

D. MANUEL — Cuido que o senhor D. Antônio foi dizer-lho em pessoa. Deus ! Aí vem eles.





CENA XVI

OS MESMOS, D. ANTÔNIO DE LIMA, D. CATARINA DE ATAÍDE

D. Antônio aparece à porta da esquerda, trazendo D. Catarina pela mão. — D. Catarina vem profundamente abatida.

D. CATARINA, à parte, vendo Camões. — Ele! Dai-me força, meu Deus! (D. Antônio corteja os dois, e segue na direção do fundo. Camões dá um passo para falar-lhe, mas D. Manuel contém-no. D. Catarina, prestes a sair, volve a cabeça para trás.)





CENA XVII

D. MANUEL DE PORTUGAL, CAMÕES

CAMÕES — Ela aí vai... talvez para sempre... Credes que para sempre?

D. MANUEL — Não. Saiamos!

CAMÕES — Vamos lá; deixemos estas salas que tão funestas me foram. (Indo ao fundo e olhando para dentro.) Ela aí vai, a minha estrela, aí vai a resvalar no abismo, de onde não sei se a levantarei mais... Nem eu... (Voltando-se para D. Manuel.) Nem vós, meu amigo, nem vós que me quereis tanto, ninguém.

D. MANUEL — Desanimais depressa, Luís. Por que ninguém?

CAMÕES — Não saberia dizer-vos; mas sinto-o aqui no coração. Essa clara luz, essa doce madrugada da minha vida, apagou-se agora mesmo, e de uma vez.

D. MANUEL — Confiai em mim, nos meus amigos, nos vossos amigos. Irei ter com eles; induzi-los-ei a....

CAMÕES — A quê? A mortificarem um camareiro-mor, a fim de servir um triste escudeiro que já estará a caminho de África?

D. MANUEL — Ides à África?

CAMÕES — Pode ser; sinto umas tonteiras africanas. Pois que me fecham a porta dos amores, abrirei eu mesmo as da guerra. Irei lá pelejar, ou não sei se morrer... África, disse eu? Pode ser que Ásia também, ou Ásia só; o que me der na imaginação.

D. MANUEL — Saiamos.

CAMÕES — E agora, adeus, infiéis paredes; sede ao menos com passivas; guardai-ma, guardai-ma bem, a minha formosa D. Catarina! (A D. Manuel.) Credes que tenho vontade de chorar?

D. MANUEL — Saiamos, Luís!

CAMÕES — Eu não choro, não; não choro... não quero... (Forcejando por ser alegre.) Vedes? até rio! Vou-me para bem longe. Considerando bem, Ásia é melhor; lá rematou a audácia lusitana o seu edifício, lá irei escutar o rumor dos passos do nosso Vasco. E este sonho, esta quimera, esta coisa que me flameja cá dentro, quem sabe se... Um grande sonho, senhor D. Manuel... Vede lá, ao longe, na imensidade desses mares, nunca dantes navegados, uma figura rútila, que se debruça dos balcões da aurora, coroada de palmas indianas? É a nossa glória, é a nossa glória que alonga os olhos, como a pedir o seu esposo ocidental. E nenhum lhe vai dar o ósculo que a fecunde; nenhum filho desta terra, nenhum que empunhe a tuba da imortalidade, para dizê-la aos quatro ventos do céu... Nenhum... (Vai amortecendo a voz.) Nenhum... (Pausa, fita D. Manuel, como se acordasse, e dá de ombros.) Uma grande quimera, senhor D. Manuel. Vamos ao nosso desterro.

FIM

Não consultes médico - Teatro de Machado de Assis

Publicado originalmente em Páginas Recolhidas , Joaquim Maria Machado de Assis.
Rio de Janeiro: Editora Garnier, 1899


PERSONAGENS
D. Leocádia
D. Carlota
D. Adelaide
Cavalcante
Magalhães



Um gabinete em casa de Magalhães, na Tijuca

CENA I

Magalhães, D. Adelaide

(Magalhães lê um livro. D. Adelaide folheia um livro de gravuras)

MAGALHÃES — Esta gente não terá vindo?

D. ADELAIDE — Parece que não. Já saíram há um bom pedaço; felizmente o dia está fresco. Titia estava tão contente ao almoço! E ontem? Você viu que risadas que ela dava, ao jantar, ouvindo o Dr. Cavalcante? E o Cavalcante sério. Meu Deus, que homem triste!que cara de defunto!

MAGALHÃES — Coitado do Cavalcante! Mas que quererá ela comigo? Falou-me em um obséquio.

D. ADELAIDE — Sei o que é.

MAGALHÃES — Que é?

D. ADELAIDE — Por ora é segredo. Titia quer que levemos Carlota conosco.

MAGALHÃES — Para a Grécia?

D. ADELAIDE — Sim, para a Grécia.

MAGALHÃES — Talvez ela pense que a Grécia é em Paris. Eu aceitei a legação de Atenas porque não me dava bem em Guatemala e não há outra vaga na América. Nem é só por isso; você tem vontade de ir acabar a lua de mel na Europa... Mas então Carlota vai ficar conosco?

D. ADELAIDE — É só algum tempo. Carlota gostava muito de um tal Rodrigues, capitão de engenharia, que casou com uma viúva espanhola. Sofreu muito, e ainda agora anda meia triste; titia diz que há de curá-la.

MAGALHÃES (rindo) — É a mania dela.

D. ADELAIDE (rindo) — Só cura moléstias morais.

MAGALHÃES — A verdade é que nos curou; mas, por muito que lhe paguemos em gratidão, fala-nos sempre da nossa antiga moléstia. "Como vão os meus doentezinhos? Não é verdade que estão curados?"

D. ADELAIDE — Pois falemos-lhe nós da cura, para lhe dar gosto. Agora quer curar a filha.

MAGALHÃES — Do mesmo modo?

D. ADELAIDE — Por ora não. Quer mandá-la à Grécia para que ela esqueça o capitão de engenharia.

MAGALHÃES — Mas, em qualquer parte se esquece um capitão de engenharia.

D. ADELAIDE — Titia pensa que a visita das ruínas e dos costumes diferentes cura mais depressa. Carlota está com dezoito para dezenove anos; titia não a quer casar antes dos vinte. Desconfio que já traz um noivo em mente, um moço que não é feio, mas tem o olhar espantado.

MAGALHÃES — É um desarranjo para nós; mas, enfim, pode ser que lhe achemos lá na Grécia algum descendente de Alcibíades que a preserve do olhar espantado.

D. ADELAIDE — Ouço passos. Há de ser titia...

MAGALHÃES — Justamente! Continuemos a estudar a Grécia. (Sentam-se outra vez, Magalhães lendo, D. Adelaide folheando o livro de vistas).




CENA II

Os mesmos e D. Leocádia

D. LEOCÁDIA (para à porta, desce pé ante pé, e mete a cabeça entre os dois) — Como vão os meus doentezinhos? Não é verdade que estão curados?

MAGALHÃES (á parte) — É isto todos os dias.

D. LEOCÁDIA — Agora estudam a Grécia; fazem muito bem. O país do casamento é que vocês não precisaram estudar.

D. ADELAIDE — A senhora foi a nossa geografia, foi quem nos deu as primeiras lições.

D. LEOCÁDIA — Não diga lições, diga remédios. Eu sou doutora, eu sou médica. Este (indicando Magalhães), quando voltou de Guatemala, tinha um ar esquisito; perguntei-lhe se queria ser deputado, disse-me que não; observei-lhe o nariz, e vi que era um triste nariz solitário...

MAGALHÃES — Já me disse isto cem vezes.

D. LEOCÁDIA (voltando-se para ele e continuando) — Esta (designando Adelaide) andava hipocondríaca. O médico da casa receitava pílulas, cápsulas, uma porção de tolices que ela não tomava porque eu não deixava; o médico devia ser eu.

D. ADELAIDE — Foi uma felicidade. Que é que se ganha em engolir pílulas?

D. LEOCÁDIA — Apanham-se moléstias.

D. ADELAIDE — Uma tarde, fitando eu os olhos de Magalhães...

D. LEOCÁDIA — Perdão, o nariz.

D. ADELAIDE — Vá lá. A senhora disse-me que ele tinha o nariz bonito, mas muito solitário. Não entendi; dois dias depois, perguntou-me se queria casar, eu não sei que disse, e acabei casando.

D. LEOCÁDIA — Não é verdade que estão curados?

MAGALHÃES — Perfeitamente.

D. LEOCÁDIA — A propósito, como irá o Dr. Cavalcante? Que esquisitão! Disse-me ontem que a coisa mais alegre do mundo era um cemitério. Perguntei-lhe se gostava aqui da Tijuca, respondeu-me que sim, e que o Rio de Janeiro era uma grande cidade. "É a segunda vez que a vejo, disse ele; eu sou do Norte. É uma grande cidade, José Bonifácio é um grande homem, a rua do Ouvidor um poema, o chafariz da Carioca um belo chafariz, o Corcovado, o gigante de pedra, Gonçalves Dias, os Timbiras, o Maranhão..." Embrulhava tudo a tal ponto que me fez rir. Ele é doido?

MAGALHÃES — Não.

D. LEOCÁDIA — A principio, cuidei que era. Mas o melhor foi quando se serviu o peru. Perguntei-lhe que tal achava o peru. Ficou pálido, deixou cair o garfo, fechou os olhos e não me respondeu. Eu ia chamar a atenção de vocês, quando ele abriu os olhos e disse com voz surda: "D. Leocádia, eu não conheço o Peru.." Eu, espantada, perguntei: "Pois não está comendo?..." "Não falo desta pobre ave; falo-lhe da república".

MAGALHÃES — Pois conhece a república.

D. LEOCÁDIA — Então mentiu.

MAGALHÃES — Não, porque nunca lá foi.

D. LEOCÁDIA (a D. Adelaide) — Mau! seu marido parece que também está virando o juízo. (A Magalhães) Conhece então o Peru, como vocês estão conhecendo a Grécia... pelos livros.

MAGALHÃES — Também não.

D. LEOCÁDIA — Pelos homens?.

MAGALHÃES — Não, senhora.

D. LEOCÁDIA — Então pelas mulheres?

MAGALHÃES — Nem pelas mulheres.

D. LEOCÁDIA — Por uma mulher?

MAGALHÃES — Por uma mocinha, filha do ministro do Peru em Guatemala. Já contei a historia à Adelaide. (D. Adelaide senta-se folheando o livro de gravuras).

D. LEOCÁDIA (senta-se) — Ouçamos a história. É curta?

MAGALHÃES — Quatro palavras. Cavalcante estava em comissão do nosso governo e freqüentava o corpo diplomático, onde era muito bem visto. Realmente, não se podia achar criatura mais dada, mais expansiva, mais estimável. Um dia começou a gostar da peruana. A peruana era bela e alta, com uns olhos admiráveis. Cavalcante, dentro de pouco, estava doido por ela, não pensava em mais nada, não falava de outra pessoa. Quando a via ficava estático. Se ela gostava dele, não sei; é certo que o animava e já se falava em casamento. Puro engano! Dolores voltou para o Peru, onde casou com um primo, segundo me escreveu o pai.

D. LEOCÁDIA — Ele ficou desconsolado, naturalmente.

MAGALHÃES — Ah! não me fale! Quis matar-se; pude impedir esse ato de desespero, e o desespero desfez-se em lagrimas. Caiudoente, uma febre que quase o levou. Pediu dispensa da comissão, e, como eu tinha obtido seis meses de licença, voltamos juntos. Não imagina o abatimento em que ficou, a tristeza profunda; chegou a ter as idéias baralhadas. Ainda agora, diz alguns disparates, mas emenda-se logo e ri de si mesmo.

D. LEOCÁDIA — Quer que lhe diga? Já ontem suspeitei que era negócio de amores; achei-lhe um riso amargo... Terá bom coração?

MAGALHÃES — Coração de ouro.

D. LEOCÁDIA — Espírito elevado?

MAGALHÃES — Sim, senhora.

D. LEOCÁDIA — Espírito elevado, coração de ouro, saudades... Está entendido.

MAGALHÃES — Entendido o que?

D. LEOCÁDIA — Vou curar o seu amigo Cavalcante. De que é que vocês se espantam?

D. ADELAIDE — De nada.

MAGALHÃES — De nada, mas...

D. LEOCÁDIA — Mas que?

MAGALHÃES — Parece-me...

D. LEOCÁDIA — Não parece nada; vocês são uns ingratos. Pois se confessam que eu curei o nariz de um e a hipocondria do outro, como é que põem em duvida que eu possa curar a maluquice do Cavalcante? Vou curá-lo. Ele virá hoje?

D. ADELAIDE — Não vem todos os dias; às vezes passa-se uma semana.

MAGALHÃES — Mora perto daqui; vou escrever-lhe que venha e, quando chegar, dir-lhe-ei que a senhora é o maior médico do século; cura o moral... Mas, minha tia, devo avisá-la de uma coisa: não lhe fale em casamento.

D. LEOCÁDIA — Oh! não!

MAGALHÃES — Fica furioso quando lhe falam em casamento; responde que só se há de casar com a morte... A senhora exponha-lhe...

D. LEOCÁDIA — Ora, meu sobrinho, vá ensinar o padre-nosso ao vigário. Eu sei o que ele precisa, mas quero estudar primeiro o doente e a doença. Já volto.

MAGALHÃES — Não lhe diga que eu é que lhe contei o caso da peruana...

D. LEOCÁDIA — Pois se eu mesma adivinhei que ele sofria do coração. (Sai; entra Carlota).




CENA III

Magalhães, D. Adelaide, D. Carlota

D. ADELAIDE — Bravo! está mais corada agora!

D. CARLOTA — Foi do passeio.

D. ADELAIDE — De que é que você gosta mais, da Tijuca ou da cidade?

D. CARLOTA — Eu por mim, ficava metida aqui na Tijuca.

MAGALHÃES — Não creio. Sem bailes? sem teatro lírico?

D. CARLOTA — Os bailes cansam, e não temos agora teatro lírico.

MAGALHÃES — Mas, em suma, aqui ou na cidade, o que é preciso é que você ria; esse ar tristonho faz-lhe a cara feia.

D. CARLOTA — Mas eu rio. Ainda agora não pude deixar de rir, vendo o Dr. Cavalcante.

MAGALHÃES — Por que?

D. CARLOTA — Ele passava ao longe, a cavalo, tão distraído que levava a cabeça caída entre as orelhas do animal; ri da posição, mas lembrei-me que podia cair e ferir-se, e estremeci toda.

MAGALHÃES — Mas não caiu?

D. CARLOTA — Não.

D. ADELAIDE — Titia viu também?

D. CARLOTA — Mamãe ia-me falando da Grécia, do céu da Grécia, dos monumentos da Grécia, do rei da Grécia; toda ela é Grécia, fala como se tivesse estado na Grécia.

D. ADELAIDE — Você quer ir conosco para lá?

D. CARLOTA — Mamãe não há de querer.

D. ADELAIDE — Talvez queira. (Mostrando-lhe as gravuras do livro). Olhe que bonitas vistas! Isto são ruínas. Aqui está uma cena de costumes. Olhe esta rapariga com um pote...

MAGALHÃES — (à janela) — Cavalcante aí vem.

D. CARLOTA — Não quero vê-lo.

D. ADELAIDE — Por que?

D. CARLOTA — Agora que passou o medo, posso rir-me lembrando a figura que ele fazia.

D. ADELAIDE — Eu também vou. (Saem as duas; Cavalcante aparece à porta. Magalhães deixa a janela).




CENA IV

Cavalcante, Magalhães

MAGALHÃES — Entra. Como passaste a noite?

CAVALCANTE — Bem. Dei um belo passeio; fui até ao Vaticano e vi o papa. (Magalhães olha espantado). Não te assustes, não estou doido. Eis o que foi: o meu cavalo ia para um lado e o meu espírito para outro. Eu pensava em fazer-me frade; então todas as minhas idéias vestiram-se de burel, e entrei a ver sobrepelizes e tochas; enfim, cheguei a Roma, apresentei-me à porta do Vaticano e pedi para ver o papa. No momento em que Sua Santidade apareceu, prosternei-me, depois estremeci; despertei e vi que o meu corpo seguira atrás do sonho, e que eu ia quase caindo.

MAGALHÃES — Foi então que a nossa prima Carlota deu contigo ao longe.

CAVALCANTE — Também eu a vi, e de vexado piquei o cavalo.

MAGALHÃES — Mas, então ainda não perdeste essa idéia de ser frade?

CAVALCANTE — Não.

MAGALHÃES — Que paixão romanesca!

CAVALCANTE — Não, Magalhães; reconheço agora o que vale o mundo com as suas perfídias e tempestades. Quero achar um abrigo contra elas; esse abrigo é o claustro. Não sairei nunca da minha cela e buscarei esquecer diante do altar...

MAGALHÃES — Olha que vais cair do cavalo!

CAVALCANTE — Não te rias, meu amigo!

MAGALHÃES — Não; quero só acordar-te. Realmente, estás ficando maluco. Não penses mais em semelhante moça. Há no mundo milhares e milhares de moças iguais à bela Dolores.

CAVALCANTE — Milhares e milhares? Mais uma razão para que eu me esconda em um convento. Mas é engano: há só uma, e basta.

MAGALHÃES — Bem; não há remédio senão entregar-te à minha tia.

CAVALCANTE — À tua tia?

MAGALHÃES — Minha tia crê que tu deves padecer de alguma doença moral — e adivinhou — e fala de curar-te. Não sei se sabes que ela vive na persuasão de que cura todas as enfermidades morais.

CAVALCANTE — Oh! eu sou incurável!

MAGALHÃES — Por isso mesmo deves sujeitar-te aos seus remédios. Se te não curar, dar-te-ia alguma distração, e é o que eu quero. (Abre a charuteira que está vazia). Olha, espera aqui, lê algum livro; eu vou buscar charutos. (Sai; Cavalcante pega num livro e senta-se).




CENA V

Cavalcante, D. Carlota, aparecendo ao fundo.

D. CARLOTA — Primo... (Vendo Cavalcante) Ah! perdão!

CAVALCANTE (erguendo-se) — Perdão de que!

D. CARLOTA — Cuidei que meu primo estava aqui; vim buscar um livro de gravuras de prima Adelaide; está aqui...

CAVALCANTE — A senhora viu-me passar a cavalo, há uma hora, numa posição incômoda e inexplicável.

D. CARLOTA — Perdão, mas...

CAVALCANTE — Quero dizer que eu levava na cabeça uma idéia séria, um negócio grave.

D. CARLOTA — Creio.

CAVALCANTE — Deus queira que nunca possa entender o que era! Basta crer. Foi a distração que me deu aquela postura inexplicável. Na minha família quase todos são distraídos. Um dos meus tios morreu na guerra do Paraguai por causa de uma distração; era capitão de engenharia.

D. CARLOTA (perturbada) — Oh! não me fale!

CAVALCANTE — Por que? Não pode tê-lo conhecido.

D. CARLOTA — Não, senhor; desculpe-me, sou um pouco tonta. Vou levar o livro à minha prima.

CAVALCANTE — Peço-lhe perdão, mas...

D. CARLOTA — Passe bem. (Vai à porta).

CAVALCANTE — Mas, eu desejava saber...

D. CARLOTA — Não, não, perdoe-me. (Sai.).




CENA VI

CAVALCANTE (só) — Não compreendo: não sei se a ofendi. Falei no tio João Pedro, que morreu no Paraguai, antes dela nascer...




CENA VII

Cavalcante, D. Leocádia

D. LEOCÁDIA (ao fundo, à parte) Está pensando (Desce). Bom dia, Dr. Cavalcante!

CAVALCANTE — Como passou, minha senhora?

D. LEOCÁDIA — Bem, obrigada. Então meu sobrinho deixou-o aqui só?

CAVALCANTE — Foi buscar charutos, já volta.

D. LEOCÁDIA — Os senhores são muito amigos.

CAVALCANTE Somos como dois irmãos.

D. LEOCÁDIA — Magalhães é um coração de ouro e o senhor parece-me outro. Acho-lhe só um defeito, doutor... Desculpe-me esta franqueza de velha; acho que o senhor fala trocado.

CAVALCANTE — Disse-lhe ontem algumas tolices, não?

D. LEOCÁDIA — Tolices, é muito; umas palavras sem sentido.

CAVALCANTE — Sem sentido, insensatas, vem a dar no mesmo.

D. LEOCÁDIA (pegando-lhe nas mãos) — Olhe bem para mim. (Pausa). Suspire. (Cavalcante suspira). O senhor está doente: não negue que está doente — moralmente, entenda-se; não negue! (Solta-lhe as mãos).

CAVALCANTE — Negar seria mentir. Sim, minha senhora, confesso que tive um grandíssimo desgosto

D. LEOCÁDIA — Jogo de praça?

CAVALCANTE — Não, senhora.

D. LEOCÁDIA — Ambições políticas mal-logradas?

CAVALCANTE — Não conheço política.

D. LEOCÁDIA — Algum livro mal recebido pela imprensa?

CAVALCANTE — Só escrevo cartas particulares.

D. LEOCÁDIA — Não atino. Diga francamente; eu sou médico de enfermidades morais e posso curá-lo. Ao médico diz-se tudo. Ande, fale, conte-me tudo, tudo, tudo. Não se trata de amores?...

CAVALCANTE (suspirando) — Trata-se justamente de amores.

D. LEOCÁDIA — Paixão grande?

CAVALCANTE — Oh! imensa!

D. LEOCÁDIA — Não quero saber o nome da pessoa, não é preciso. Naturalmente bonita?

CAVALCANTE — Como um anjo!

D. LEOCÁDIA. — O coração também era de anjo?

CAVALCANTE — Pode ser, mas de anjo mau.

D. LEOCÁDIA — Uma ingrata...

CAVALCANTE — Uma perversa!

D. LEOCÁDIA — Diabólica...

CAVALCANTE — Sem entranhas!

D. LEOCÁDIA — Vê que estou adivinhando. Console-se; uma criatura dessas não acha casamento.

CAVALCANTE — Já achou!

D. LEOCÁDIA — Já?

CAVALCANTE — Casou, minha senhora; teve a crueldade de casar com um primo.

D. LEOCÁDIA — Os primos quase que não nascem para outra coisa. Diga-me, não procurou esquecer o mal nas folias próprias de rapazes?

CAVALCANTE — Oh! não! Meu único prazer é pensar nela.

D. LEOCÁDIA — Desgraçado! Assim nunca há de sarar.

CAVALCANTE — Vou tratar de esquecê-la.

D. LEOCÁDIA — De que modo?

CAVALCANTE — De um modo velho, alguns dizem que já obsoleto e arcaico. Penso em fazer-me frade. Há de haver em algum recanto do mundo um claustro em que não penetre sol nem lua.

D. LEOCÁDIA — Que ilusão! Lá mesmo achará a sua namorada. Há de vê-la

nas paredes da cela, no teto, no chão, nas folhas do breviário. O silêncio far-se-á boca da moça, a solidão será o seu corpo.

CAVALCANTE — Então estou perdido. Onde acharei paz e esquecimento?

D. LEOCÁDIA — Pode ser frade sem ficar no convento. No seu caso o remédio naturalmente indicado é ir pregar... na China, por exemplo. Vá pregar aos infiéis na China. Paredes de convento são mais perigosas que olhos de chinesas. Ande, vá pregar na China. No fim de dez anos está curado. Volte, meta-se no convento e não achará lá o diabo.

CAVALCANTE — Está certa que na China...

D. LEOCÁDIA — Certíssima.

CAVALCANTE — O seu remédio é muito amargo! Por que é que me não manda antes para o Egito? Também é país de infiéis.

D. LEOCÁDIA — Não serve; é a terra daquela rainha... Como se chama?

CAVALCANTE — Cleópatra? Morreu há tantos séculos!

D. LEOCÁDIA — Meu marido disse que era uma desmiolada.

CAVALCANTE — Seu marido era, talvez, um erudito. Minha senhora, não se aprende amor nos livros velhos, mas nos olhos bonitos; por isso, estou certo de que ele adorava a V. Excia.

D. LEOCÁDIA — Ah! ah! Já o doente começa a adular o médico. Não, senhor, há de ir à China. Lá há mais livros velhos que olhos bonitos. Ou não tem confiança em mim?

CAVALCANTE — Oh! tenho; tenho. Mas ao doente é permitido fazer uma careta antes de engolir a pílula. Obedeço; vou para a China. Dez anos, não?

D. LEOCÁDIA (levanta-se) — Dez ou quinze, se quiser; mas antes dos quinze está curado.

CAVALCANTE — Vou.

D. LEOCÁDIA — Muito bem. A sua doença é tal que só com remédios fortes. Vá; dez anos passam depressa.

CAVALCANTE — Obrigado, minha senhora.

D. LEOCÁDIA — Até logo.

CAVALCANTE — Não, minha senhora, vou já.

D. LEOCÁDIA — Já para a China!

CAVALCANTE — Vou arranjar as malas e amanhã embarco para a Europa; vou a Roma, depois sigo imediatamente para a China... Até daqui a dez anos. (Estende-lhe a mão).

D. LEOCÁDIA — Fique ainda uns dias...

CAVALCANTE — Não posso.

D. LEOCÁDIA — Gosto de ver essa pressa; mas, enfim, pode esperar ainda uma semana.

CAVALCANTE — Não, não devo esperar. Quero ir às pílulas quanto antes; é preciso obedecer religiosamente ao médico.

D. LEOCÁDIA — Como eu gosto de ver um doente assim! O senhor tem fé no médico. O pior é que daqui a pouco, talvez, não se lembre dele.

CAVALCANTE — Oh! não! Hei de lembrar-me sempre, sempre!

D. LEOCÁDIA — No fim de dois anos escreva-me; informe-me sobre o seu estado e talvez eu o faça voltar. Mas, não minta, olhe lá; se já tiver esquecido a namorada, consentirei que volte.

CAVALCANTE — Obrigado. Vou ter com seu sobrinho e depois vou arranjar as malas.

D. LEOCÁDIA — Então não volta mais a esta casa?

CAVALCANTE — Virei daqui a pouco, uma visita de dez minutos, e depois desço, vou tomar passagem no paquete de amanhã.

D. LEOCÁDIA — Jante, ao menos, conosco.

CAVALCANTE — Janto na cidade.

D. LEOCÁDIA — Bem, adeus; guardemos o nosso segredo. Adeus, Dr. Cavalcante. Creia-me: o senhor merece estar doente. Há pessoas que adoecem sem merecimento nenhum; ao contrário, não merecem outra coisa mais que uma saúde de ferro. O senhor nasceu para adoecer; que obediência ao médico! que facilidade em engolir todas as nossas pílulas! Adeus!

CAVALCANTE — Adeus, D. Leocádia. (Sai pelo fundo).




CENA VIII

D. Leocádia, D. Adelaide

D. LEOCÁDIA — Com dois anos de China está curado. (Vendo entrar Adelaide). O Dr. Cavalcante saiu agora mesmo. Ouviste o meu exame médico?

D. ADELAIDE — Não. Que lhe pareceu?

D. LEOCÁDIA — Cura-se.

D. ADELAIDE — De que modo?

D. LEOCÁDIA — Não posso dizer; é segredo profissional.

D. ADELAIDE — Em quantas semanas fica bom?

D. LEOCÁDIA — Em dez anos.

D. ADELAIDE — Misericórdia! Dez anos!

D. LEOCÁDIA — Talvez dois; é moço, e robusto, a natureza ajudará a medicina, conquanto esteja muito atacado. Aí vem teu marido.




CENA IX

Os mesmos, Magalhães.

MAGALHÃES (a D. Leocádia) — Cavalcante disse-me que vai embora; eu vim correndo saber o que é que lhe receitou.

D. LEOCÁDIA — Receitei-lhe um remédio enérgico, mas que há de salva-lo. Não são consolações de cacaracá. Coitado! Sofre muito, está gravemente doente; mas, descansem, meus filhos, juro-lhes, à fé do meu grau, que hei de curá-lo. Tudo é que me obedeça, e este obedece. Oh! aquele crê em mim. E vocês, meus filhos? Como vão os meus doentezinhos? Não é verdade que estão curados? (Sai pelo fundo).




CENA X

Magalhães, D. Adelaide

MAGALHÃES — Tinha vontade de saber o que é que ela lhe receitou.

D. ADELAIDE — Não falemos disso.

MAGALHÃES — Sabes o que foi?

D. ADELAIDE — Não; mas titia disse-me que a cura se fará em dez anos. (Espanto de Magalhães). Sim, dez anos; talvez dois, mas a cura certa é em dez anos.

MAGALHÃES (atordoado) — Dez anos !

D. ADELAIDE — Ou dois!

MAGALHÃES — Ou dois?

D. ADELAIDE — Ou dez.

MAGALHÃES — Dez anos! Mas é impossível! Quis brincar contigo. Ninguém leva dez anos a sarar; ou sara antes ou morre.

D. ADELAIDE — Talvez ela pense que a melhor cura é a morte.

MAGALHÃES — Talvez. Dez anos!

D. ADELAIDE — Ou dois; não esqueças.

MAGALHÃES — Sim, ou dois; dois anos é muito, mas, há casos... Vou ter com ele.

D. ADELAIDE — Se titia quis enganar a gente, não é bom que os estranhos saibam. Vamos falar com ela, talvez que, pedindo muito, ela diga a verdade. Não leves essa cara assustada; é preciso falar-lhe naturalmente, com indiferença.

MAGALHÃES — Pois vamos.

D. ADELAIDE — Pensando bem, é melhor que eu vá só; entre mulheres...

MAGALHÃES — Não; ela continuará a zombar de ti; vamos juntos, estou sobre brasas.

D. ADELAIDE — Vamos.

MAGALHÃES — Dez anos!

D. ADELAIDE — Ou dois. (Saem pelo fundo).




CENA XI

D. CARLOTA (entrando pela direita) — Ninguém! Afinal foram-se! Esta casa anda hoje cheia de mistérios. Há um quarto de hora quis vir aqui, e prima Adelaide disse-me que não, que se tratavam aqui negócios graves. Pouco depois levantou-se e saiu; mas antes disso contou-me que mamãe é que quer que eu vá para a Grécia. A verdade é que todos me falam de Atenas, de ruínas, de danças gregas, de Acrópole... Creio que é Acrópole que se diz. (Pega no livro que Magalhães estivera lendo, senta-se, abre e lê). "Entre osprovérbios gregos, há um muito fino: Não consultes medico; consulta alguém que tenha estado doente". Não sei que possa ser.(Continua a ler em voz baixa).




CENA XII

D. Carlota, Cavalcante

CAVALCANTE (ao fundo) — D. Leocádia! (Entra e fala de longe a Carlota, que está de costas). Quando eu ia a sair, lembrei-me.

D. CARLOTA — Quem é? (Levanta-se). Ah! Doutor!

CAVALCANTE — Desculpe-me, vinha falar à senhora sua mãe para lhe pedir um favor.

D. CARLOTA — Vou chamá-la.

CAVALCANTE — Não se incomode; falar-lhe-ei logo. Saberá por acaso se a senhora sua mãe conhece algum cardeal em Roma?

D. CARLOTA — Não sei, não, senhor.

CAVALCANTE — Queria pedir-lhe uma carta de apresentação; voltarei mais tarde. (Corteja, sai e para). Ah! aproveito a ocasião para lhe perguntar, ainda uma vez, em que é que a ofendi?

D. CARLOTA — O senhor nunca me ofendeu.

CAVALCANTE — Certamente que não; mas ainda há pouco, falando-lhe de um tio meu, que morreu no Paraguai, tio João Pedro, capitão de engenharia...

D. CARLOTA (atalhando) — Por que é que o senhor quer ser apresentado a um cardeal?

CAVALCANTE — Bem respondido! Confesso que fui indiscreto com a minha pergunta. Já há de saber que eu tenho distrações repentinas, e quando não caio no ridículo, como hoje de manhã, caio na indiscrição. São segredos mais graves que os seus. É feliz, é bonita, pode contar com o futuro, enquanto que eu... Mas eu não quero aborrecê-la. O meu caso há de andar em romances.(Indicando o livro que ela tem na mão).

D. CARLOTA — Não é romance (Dá-lhe o livro).

CAVALCANTE — Não? (Lê o titulo). Como? Está estudando a Grécia?

D. CARLOTA — Estou.

CAVALCANTE — Vai para lá?

D. CARLOTA — Vou, com prima Adelaide.

CAVALCANTE — Viagem de recreio, ou vai tratar-se?

D. CARLOTA — Deixe-me ir chamar mamãe.

CAVALCANTE — Perdoe-me ainda uma vez; fui indiscreto, retiro-me. (Dá alguns passos para sair).

D. CARLOTA — Doutor! (Cavalcante pára). Não se zangue comigo; sou um pouco tonta, o senhor é bom.

CAVALCANTE (descendo) — Não diga que sou bom; os infelizes são apenas infelizes. A bondade é toda sua. Há poucos dias que nos conhecemos e já nos zangamos, por minha causa. Não proteste; a causa é a minha moléstia.

D. CARLOTA — O senhor está doente?

CAVALCANTE — Mortalmente.

D. CARLOTA — Não diga isso!

CAVALCANTE — Ou gravemente, se prefere.

D. CARLOTA — Ainda é muito. E que moléstia é?

CAVALCANTE Quanto ao nome, não há acordo: loucura, espírito romanesco e muitos outros. Alguns dizem que é amor. Olhe, está outra vez aborrecida comigo!

D. CARLOTA Oh! não, não, não. (Procurando rir). É o contrario; estou até muito alegre. Diz-me então que está doente, louco...

CAVALCANTE — Louco de amor, é o que alguns dizem. Os autores divergem. Eu prefiro amor, por ser mais bonito, mas a moléstia, qualquer que seja a causa, é cruel e terrível. Não pode compreender este imbróglio; peça a Deus que a conserve nessa boa e feliz ignorância. Por que é que me está olhando assim? Quer talvez saber...

D. CARLOTA — Não, não quero saber nada.

CAVALCANTE — Não é crime ser curiosa.

D. CARLOTA — Seja ou não loucura, não quero ouvir histórias como a sua.

CAVALCANTE — Já sabe qual é?

D. CARLOTA — Não.

CAVALCANTE — Não tenho direito de interrogá-la; mas há já dez minutos que estamos neste gabinete falando de coisas bem esquisitas para duas pessoas que apenas se conhecem.

D. CARLOTA (estendendo-lhe a mão) — Até logo.

CAVALCANTE — A sua mão está fria. Não se vá ainda embora; hão de achá-la agitada. Sossegue um pouco, sente-se. (Carlota senta-se). Eu retiro-me.

D. CARLOTA — Passe bem.

CAVALCANTE — Até logo.

D. CARLOTA — Volta logo?

CAVALCANTE — Não, não volto mais; queria enganá-la.

D. CARLOTA — Enganar-me por que?

CAVALCANTE — Porque já fui enganado uma vez. Ouça-me: são duas palavras. Eu gostava muito de uma moça que tinha a sua beleza, e ela casou com outro. Eis a minha moléstia.

D. CARLOTA (erguendo-se) — Como assim?

CAVALCANTE — É verdade; casou com outro.

D. CARLOTA (indignada) — Que ação vil!

CAVALCANTE — Não acha?

D. CARLOTA — E ela gostava do senhor?

CAVALCANTE — Aparentemente; mas, depois vi que eu não era mais que um passatempo.

D. CARLOTA (animando-se aos poucos) — Um passatempo! Fazia-lhe juramentos, dizia-lhe que o senhor era a sua única ambição, o seu verdadeiro Deus, parecia orgulhosa em contemplá-lo por horas infinitas, dizia-lhe tudo, tudo, umas coisas que pareciam cair do céu, e suspirava...

CAVALCANTE — Sim, suspirava, mas...

D. CARLOTA (muito animada) — Um dia abandonou-o, sem uma só palavra de saudade nem de consolação, fugiu e foi casar com uma viúva espanhola!

CAVALCANTE (espantado) — Uma viúva espanhola!

D. CARLOTA — Ah! tem muita razão em estar doente!

CAVALCANTE — Mas que viúva espanhola é essa de que me fala?

D. CARLOTA (caindo em si) — Eu falei-lhe de uma viúva espanhola?

CAVALCANTE — Falou.

D. CARLOTA — Foi engano... Adeus, Sr. doutor.

CAVALCANTE — Espere um instante. Creio que me compreendeu. Falou com tal paixão que os médicos não têm. Oh! como eu execro os médicos! principalmente os que me mandam para a China.

D. CARLOTA — O senhor vai para a China?

CAVALCANTE — Vou; mas não diga nada! Foi sua mãe que me deu essa receita.

D. CARLOTA — A China é muito longe!

CAVALCANTE — Creio até que está fora do mundo.

D. CARLOTA — Tão longe por que?

CAVALCANTE — Boa palavra essa. Sim, por que ir à China, se a gente pode sarar na Grécia? Dizem que a Grécia é muito eficaz para estas feridas; há quem afirme que não há melhor para as que são feitas pelos capitães de engenharia. Quanto tempo vai lá passar?

D. CARLOTA — Não sei. Um ano, talvez.

CAVALCANTE — Crê que eu possa sarar num ano?

D. CARLOTA — É possível.

CAVALCANTE — Talvez sejam precisos dois — dois ou três.

D. CARLOTA — Ou três.

CAVALCANTE — Quatro, cinco...

D. CARLOTA — Cinco, seis...

CAVALCANTE — Depende menos do país que da doença.

D. CARLOTA — Ou do doente.

CAVALCANTE — Ou do doente. Já a passagem do mar pode ser que me faça bem. A minha moléstia casou com um primo. A sua (perdoe esta outra indiscrição; é a última), a sua casou com a viúva espanhola. As espanholas, mormente viúvas, são detestáveis. Mas, diga-me uma coisa: se uma pessoa já está curada, que é que vai fazer à Grécia!

D. CARLOTA — Convalescer, naturalmente. O senhor, como ainda está doente, vai para a China.

CAVALCANTE — Tem razão. Entretanto, começo a ter medo de morrer... Pensou alguma vez na morte?

D. CARLOTA — Pensa-se nela, mas lá vem um dia em que a gente aceita a vida, seja como for.

CAVALCANTE — Vejo que sabe muita coisa...

D. CARLOTA — Não sei nada; sou uma tagarela, que o senhor obrigou a dar por paus e por pedras; mas, como é a última vez que nos vemos, não importa. Agora, passe bem.

CAVALCANTE — Adeus, D. Carlota!

D. CARLOTA — Adeus, doutor!

CAVALCANTE — Adeus. (Dá um passo para a porta do fundo). Talvez eu vá a Atenas; não fuja se me vir vestido de frade.

D. CARLOTA (indo a ele) — De frade? O senhor vai ser frade?

CAVALCANTE — Frade. Sua mãe aprova-me, contanto que eu vá à China. Parece-lhe que devo obedecer a esta vocação, ainda depois de perdida?

D. CARLOTA — É difícil obedecer a uma vocação perdida.

CAVALCANTE — Talvez nem a tivesse, e ninguém se deu ao trabalho de me dissuadir. Foi aqui, a seu lado, que comecei a mudar. A sua voz sai de um coração que padeceu também, e sabe falar a quem padece. Olhe, julgue-me doido, se quiser, mas eu vou pedir-lhe um favor: conceda-me que a ame. (Carlota, perturbada, volta o rosto). Não lhe peço que me ame, mas que se deixe amar; é um modo de ser grato. Se fosse uma santa, não podia impedir que lhe acendesse uma vela.

D. CARLOTA — Não falemos mais nisto e separemo-nos.

CAVALCANTE — A sua voz treme; olhe para mim...

D. CARLOTA — Adeus; aí vem mamãe.




CENA XIII

Os mesmos, D. Leocádia

D. LEOCÁDIA — Que é isto, doutor? Então o senhor quer só um ano de China? Vieram pedir-me que reduzisse a sua ausência.

CAVALCANTE — D. Carlota lhe dirá o que eu desejo.

D. CARLOTA — O doutor vem saber se mamãe conhece algum cardeal em Roma.

CAVALCANTE — A princípio era um cardeal; agora basta um vigário.

D. LEOCÁDIA — Um vigário? Para que?

CAVALCANTE — Não posso dizer.

D. LEOCÁDIA (a Carlota) — Deixa-nos sós, Carlota; o doutor quer fazer-me uma confidência.

CAVALCANTE — Não, não, ao contrário. D. Carlota pode ficar. O que eu quero dizer é que um vigário basta para casar.

D. LEOCÁDIA — Casar a quem?

CAVALCANTE — Não é já, falta-me ainda a noiva.

D. LEOCÁDIA — Mas quem é que me está falando?

CAVALCANTE — Sou eu, D. Leocádia.

D. LEOCÁDIA — O senhor! o senhor! o senhor!

CAVALCANTE — Eu mesmo. Pedi licença a alguém...

D. LEOCÁDIA — Para casar?




CENA XIV

Os mesmos, Magalhães, D. Adelaide

MAGALHÃES — Consentiu, titia?

D. LEOCÁDIA — Em reduzir a China a ano? Mas ele agora quer a vida inteira.

MAGALHÃES — Estás doido?

D. LEOCÁDIA — Sim, a vida inteira, mas é para casar. (D. Carlota fala baixo a D. Adelaide). Você entende, Magalhães?

CAVALCANTE — Eu, que devia entender, não entendo.

D. ADELAIDE (que ouviu D. Carlota) — Entendo eu. O Dr. Cavalcante contou as suas tristezas a Carlota, e Carlota, meia curada do seu próprio mal, expôs sem querer o que tinha sentido. Entenderam-se e casam-se.

D. LEOCÁDIA (a Carlota) — Deveras? (D. Carlota baixa os olhos). Bem; como é para saúde dos dois, concedo; são mais duas curas!

MAGALHÃES — Perdão; estas fizeram-se pela receita de um provérbio grego que está aqui neste livro. (Abre o livro) "Não consultes médico; consulta alguém que tenha estado doente".


FIM

Dia 02 de maio de 2009 1º aniversário de morte de Augusto Boal


criador do Teatro do Oprimido. O casaxv declara publicamente que trabalhará para manter e realizar o sonho deste entusiasta, que mudou a visão de mundo de muitos entre nós. E acreditamos que a arte e a cidadania é direito básico dos seres humanos. Tanto quanto a comida, a água, a saúde, a educação e cultura. Viva a Boal!!!

sábado, 1 de maio de 2010

7º Encontro Brasileiro de Teatro de Rua


Encontro Brasileiro de Teatro de Rua mobiliza
artistas e encanta o público gaúcho!

Fonte:http://teatroderuanobrasil.blogspot.com/

Está confirmado o 7º Encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua, que ocorre de 1 a 6 de Maio em Canoas – RS. O principal objetivo da organização do evento é apresentar, pensar e planejar o teatro de Rua, através de uma mostra de 17 peças teatrais brasileiras e do Mercosul, além de fomentar a arte e os artistas através de encontros e debates sobres os temas pertinentes a arte teatral ao ar livre.

Entre as apresentações estão confirmados importantes grupos nacionais como Cirquinho do Revirado (SC), Mamulengo da Folia (PE), Cia Circo Teatro Capixaba (ES), Bando La Trupe de Natal/RN e do Mercosul, como Grupo Circo Vê de Buenos Aires – Argentina.

As atrações estaduais ficam com os grupos De Pernas Pro Ar (Canoas), Cia TIA (Canoas), Timbre de Galo (Passo Fundo) Hora Vaga (Garibaldi), Ueba - Produtos Notáveis (Caxias do Sul). Da capital apresentam-se a Oigalê Cooperativa de Artistas, Grupo Manjericão, Grupo Mototóti, Povo da Rua teatrodegrupo, Cambada do Teatro em Ação Direta Levanta Favela..., Cia. UmPédeDois e Cia. Teatro Di Stravaganza.

O Encontro ainda recebe, além de um articulador de Teatro de Rua de cada estado brasileiro, o Núcleo de Pesquisadores de Teatro de Rua.

As apresentações, todas gratuitas, irão ocorrer entre os dias 1 e 3 de maio, respectivamente, no Parque Eduardo Gomes, Praque Capão do Corvo e Centro de Canoas, nas proximidades Calçadão/Prefeitura e os debates dos membros da Rede Brasileira de Teatro de Rua – RBTR - acontecerão na sede da AABB.

O 7º Encontro de Articuladores da Rede Brasileira de Teatro de Rua e o 1º Encontro de articuladores do Mercosul é uma realização da RBTR e da RBTR-RS, com apoio da Prefeitura Municipal de Canoas e Ministério da Cultura - Funarte.

TEATRO DO OPRIMIDO DE PONTO A PONTO – ENCONTROS E PRÁTICAS NO CENTRO-OESTE


Acontece nos dias 4, 5 e 6 de maio, em Brasília e Goiânia, o evento TEATRO DO OPRIMIDO DE PONTO A PONTO – ENCONTROS E PRÁTICAS NO CENTRO-OESTE, quando multiplicadores e praticantes do método criado pelo teatrólogo e ensaísta Augusto Boal se reúnem para discutir seus saberes e práticas. Na ocasião o público vai assistir a duas peças teatrais com atuação dos grupos praticantes do Teatro do Oprimido em Goiás. Ao final de cada apresentação alguns dos espectadores serão convidados a entrar em cena e, trocando de lugar com o protagonista, mostrar alternativas aos problemas encenados. Nas peças os atores encenam episódios da vida real, deles próprios.

A programação conta ainda com: o lançamento do livro póstumo, A Estética do Oprimido, considerado o testamento artístico de Augusto Boal, que pouco antes de falecer foi nomeado embaixador mundial do teatro pela Unesco; uma exposição de produtos artísticos produzidos pelos grupos locais, palestras e exibição de um curta metragem; e a Sessão Solene Simbólica de Teatro Legislativo.

“O espectador (ou espect-ator) da sessão de Teatro-Fórum não é um consumidor do bem cultural, mas sim um ativo interlocutor que é convidado a assumir o papel do oprimido ou de seus aliados para interagir na ação dramática de maneira a apresentar alternativas para transformar a realidade – ser ator de sua própria vida”, diz Ney Motta, assessor de comunicação.

“Na sessão de Teatro Legislativo, a platéia, além de fazer as intervenções substituindo o personagem oprimido, pode também sugerir propostas de Lei ou de ações concretas que tragam alternativas ao problema. Com o apoio de um assessor legislativo e um especialista no tema, serão selecionadas duas propostas para serem debatidas e votadas. As aprovadas serão encaminhadas ao Poder Legislativo ou às autoridades competentes. Através do Teatro Legislativo foram criadas 13 Leis Municipais na cidade do Rio de Janeiro, duas Leis Estaduais nesse estado e tramitam no Congresso Nacional dois Projetos de Lei”, afirma Olivar Bendelak, curinga do Centro de Teatro do Oprimido.

As atividades que acontecem em Brasília e Goânia, integram o PROJETO TEATRO DO OPRIMIDO DE PONTO A PONTO, cujo objetivo é a capacitação e acompanhamento de novos multiplicadores do método em 18 estados brasileiros e quatro países da África lusófona: Moçambique, Guiné-Bissau, Senegal e Angola. O Projeto é uma realização do Centro de Teatro do Oprimido (www.cto.org.br) com patrocínio do Ministério da Cultura, por intermédio do Programa Cultura Viva. O evento tem apoio da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes (DF) e Universidade Católica de Goiás.

SERVIÇO

4 de maio, terça-feira

10 às 12h – Oficina de Introdução ao Teatro do Oprimido

Local: Teatro da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes – SDS Nº 30/64 BLOCO “C” ED. FBT – Brasília/DF

Informações: (61) 3224-5369, 3224-5369 e 9228-5707 – c/ Silvia Paes

4 de maio, terça-feira

19 às 21h – Aula Espetáculo

Ministrada pela psicopedagoga Cláudia Simone, curinga do Centro de Teatro do Oprimido, e pela arte-educadora Silvia Paes, multiplicadora de Teatro do Oprimido no Centro-Oeste

Local: Teatro da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes – SDS Nº 30/64 BLOCO “C” ED. FBT – Brasília/DF

Informações: (61) 3224-5369, 3224-5369 e 9228-5707 – c/ Silvia Paes

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Tartufo - Jean-Baptiste Poquelin - (1622 - 1673)


Comédia em 5 atos, e uma das mais famosas da literatura francesa em todos os tempos. Sua primeira encenação data de 1664 e foi quase que imediatamente censurada pelos devotos religiosos que, no texto, foram retratados na personagem-título como hipócritas e dissimulados.

Os devotos sentiram-se ofendidos, e a peça quase foi proibida por esta razão, pelos tribunais do rei Luís XIV onde tinham grande influência.

No nosso idioma, o termo tartufo, como em outro idiomas, passou a ter a acepção de pessoa hipócrita ou falso religioso, originando ainda uma série de derivados como tartufice, tartúfico ou ainda o verbo tartuficar - significando enganar, ludibriar com atos de tartufice. Em época de Mensalão é um excelente texto para ser explorado. Viva a Molière!!!

Para saber mas: SITE

A Nossa Cidade – Thornton Wilder (1897 - 1975)


peça em três atos

conta-nos a história de uma pequena Cidade. O dia-a-dia da cidade desfila diante dos olhos conduzido pela narração de dois dos seus moradores, anfitriões da folia que celebra o milagre do Funchal, que, pouco a pouco, nos relatam vida de alguns dos seus habitantes.

Pequenos dramas, tons de comédia, namoros, intrigas, o descascar das ervilhas, o leiteiro que entrega o leite, os jovens que namoram, os primeiros sintomas de reumatismo, os segundos sintomas de reumatismo, os (milhões de) anos que passam, o comboio que parte para o Monte, um dragoeiro... o tempo como condutor da festa da vida e da morte.

Para saber mais: SITE

Timochenco Wehbi - (1943-1986)


Dramaturgo e Sociólogo

Este brasileiro nasceu em Presidente Prudente – SP. Timó, começou seu mergulho teatral em 1960 e ainda neste período (1968), anos de chumbo, foi um dos fundadores do Teatro da Cidade, na cidade paulista de Santo André. Em 1970 a peça A Vinda do Messias é montada pelo diretor Emilio di Basi. Logo em seguida 1973 estréia a a peça de maior sucesso do dramaturgo, A dama de copas e o rei de Cuba. A partir de então o ambiente dos cortiços paulistanos gera montagens em todo pais e até mesmo em Portugal. Outro texto muito admirado por atores e diretores é A Perseguição (ou O Longo Caminho de Zero a Ene (1974)) peça de absurdo em um ato, subdivido em cinco fragmentos. No mesmo ano estréia Palhaços, uma surpreendente disputa nos bastidores de um circo decadente. No ano seguinte (1975) Bye Bye Pororoca é montado por Antônio Abujamra. No ano de 1977 seu texto As Vozes da Agonia — ou Santa Joana d'Arc ou Santa Joaninha e Sua Cruel Peleja Contra os Homens de Guerra, Contra os Homens d'Igreja, recebe menção honrosa do Prêmio Anchieta. E esta obra até o momento ainda não foi encenada nos palcos. Em 1980 participa de uma criação coletiva de teatro jornal para a revista do Bexiga nº 0. seu texto Erro de Cálculo ainda está por ser terminado (quem sabe, nós façamos um exercício para este fim!). chegando no ano da morte de Timochenco Wehbi, temos seus últimos trabalhos, Morango e Chantilly e Curto Circuito. Ambos os textos circulam o psicodrama e fazem um mergulho de dentro para fora das personagens, brincando com a questão de espaço tempo.

Para saber mais: Leia o livro O Teatro de Timochenco Wehbi

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Brasilia, outros 50




Programa Brasília,outros 50 - Teatro

Destaque para o lançamento do Guia de Teatro de Grupo do Distrito Federal
dia: 20/04/2010 ás 20h Foyer do Teatro Plínio Marcos - FUNARTE

Programa Brasília, outros 50 - Cultura Popular


Programa Brasília, outros 50 - Circo


Programa Brasília, outros 50 - Audiovisual


Programa Brasília, outos 50 - Arte Digital


Programação Brasília, outros 50 - Cultura Digital e Artes Visuais


Programação Brasília,outros 50 - Palco Cassia Eller


Programação Brasília, outros 50 - Diversidades


Programação Brasília, outros 50 - Samba